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O Corcunda Vênus de Botticelli

O CORCUNDA E A VÊNUS DE BOTTICELLI

 

Esvoaçantes ­mechas de cabe­los rui­vos fus­ti­ga­dos pelo vento e pela chuva, pele cre­mo­sa e radian­te, é a Vênus de Botticelli andan­do pela rua. (Aquela que está na Uffizi, nas­cen­do de uma con­cha, não a do Staatliche Museen, com fundo preto, que é seme­lhan­te mas tem os cabe­los secos arru­ma­dos em torno da cabe­ça, des­cen­do lisos pelo corpo.)

Não pen­sem que me gabo de uma pers­pi­cá­cia extraor­di­ná­ria, mas o fato é que se a ­mulher que ob­ser­vo esti­ver para­da como uma está­tua, sei qual é a cadên­cia dos seus pas­sos, quan­do ela se move. Entendo não só de mús­cu­los, mas tam­bém de esque­le­tos e, con­for­me a sime­tria da ossa­tu­ra, pre­ve­jo a arti­cu­la­ção dos tor­no­ze­los, dos joe­lhos e do ilía­co, que dão ritmo ao movi­men­to do corpo.

A Vênus cami­nha sem se inco­mo­dar com a chuva, às vezes viran­do a cabe­ça para o céu a fim de ­molhar ainda mais o rosto, e, posso dizer, sem o menor ranço poé­ti­co, que é o andar de uma deusa.

Tenho que criar uma estra­té­gia rebus­ca­da para me apro­xi­mar dela e con­se­guir o que pre­ci­so, tare­fa difí­cil, as mulhe­res, no pri­mei­ro con­ta­to, sen­tem repul­sa por mim.

Eu a sigo até onde ela mora. Vigio o pré­dio duran­te ­alguns dias. Vênus gosta de cami­nhar pela rua, e de ficar sen­ta­da na praça perto da sua casa, lendo. Mas a todo momen­to para, olha as pes­soas, prin­ci­pal­men­te crian­ças, ou então dá comi­da aos pom­bos o que, de certa forma, me decep­cio­na, os pom­­­bos, como os ratos, as bara­tas, as for­mi­gas e os ­cu­pins, não pre­ci­sam de ajuda, eles per­ma­ne­ce­rão quan­do afi­nal as bac­té­rias aca­ba­rem conos­co.

Olhando‑a de longe, fico cada vez mais impres­sio­na­do com a har­mo­nia do seu corpo, o per­fei­to equi­lí­brio entre as par­tes que con­so­li­dam a sua intei­re­za — a exten­são dos mem­bros em rela­ção à dimen­são ver­ti­cal do tórax; a altu­ra do pes­co­ço em rela­ção ao rosto e à cabe­ça, a lar­gu­ra estrei­ta da cin­tu­ra com­bi­na­da ao for­ma­to firme das náde­gas e do peito. Preciso me apro­xi­mar dessa ­mu­lher o quan­to antes. Estou cor­ren­do con­tra o tempo.

Num dia de chuva forte, sento‑me ao lado dela sob o agua­cei­ro, num banco da praça. Tenho que saber logo se ela gosta de con­ver­sar.

Hoje infe­liz­men­te a chuva não per­mi­te a lei­tu­ra, digo.

Ela não res­pon­de.

Por isso você não trou­xe um livro.

Ela finge que não ouve.

Insisto: Ele faz nas­cer o sol sobre bons e maus, e faz cho­ver sobre jus­tos e injus­tos.

A ­mulher então me fita rapi­da­men­te, porém man­te­nho meus olhos na sua testa.

Está falan­do comi­go?

Deus faz cho­ver sobre os jus­tos e os… (Meus olhos na testa dela.)

Ah, você fala­va de Deus.

Ela se levan­ta. Em pé, sabe que fica em posi­ção favo­rá­vel para recha­çar os avan­ços de um intru­so.

Não leve a mal, já vi que o ­senhor deve ser um des­ses evan­gé­li­cos bus­can­do sal­var almas para Jesus, mas desis­ta, sou um caso per­di­do.

Vou atrás dela, que se afas­ta len­ta­men­te.

Não sou um pas­tor pro­tes­tan­te. Aliás, duvi­do que a senho­ra des­cu­bra o que faço.

Sou muito boa nisso. Mas hoje estou sem tempo, pre­ci­so ir a uma expo­si­ção de pin­tu­ra.

Sua voz já demons­tra menos desa­gra­do. Ela pos­sui a vir­tu­de da curio­si­da­de, o que é muito bom para mim. E tam­bém outra qua­li­da­de essen­cial: gosta de con­ver­sar. Isso é ­melhor ainda.

Proponho‑me a acom­pa­nhá‑la e, após algu­ma hesi­ta­ção, ela con­cor­da. Caminhamos, ela um pouco sepa­ra­da de mim, como se não esti­vés­se­mos jun­tos. Tento ser o mais incons­pí­cuo pos­sí­vel.

Na expo­si­ção, há ape­nas uma aten­den­te, sen­ta­da numa mesa, lixan­do as unhas. Negrinha, a minha atual aman­te, diz que mulhe­res que lixam as unhas em públi­co têm difi­cul­da­de para pen­sar, e o lixar das unhas as ajuda a refle­tir ­melhor, como aque­las que racio­ci­nam com mais cla­re­za quan­do tiram cra­vos do nariz na fren­te do espe­lho.

Enquanto olho os qua­dros com estu­da­da indi­fe­ren­ça, vou dizen­do para ela: avant‑garde do sécu­lo pas­sa­do, tra­ços abs­tra­tos espon­tâ­neos, sub­cons­cien­tes, sub­kan­dins­ki, pre­fi­ro um sone­to de Shake­speare.

Ela não res­pon­de.

Estou que­ren­do impres­sio­nar você.

Não foi o sufi­cien­te, mas falar em poe­sia aju­dou um pouco, eu gos­ta­ria de enten­der de poe­sia.

Poesia não é para ser enten­di­da, poe­sia não é bula de remé­dio. Não vou dizer isso a ela, por enquan­to.

Que tal um expres­so? ela per­gun­ta.

Procuro um lugar onde pos­sa­mos sen­tar. Sendo mais alta do que eu, a Vênus faz avul­tar a minha cor­co­va quan­do fica­mos de pé, lado a lado.

Agora vou des­co­brir o que você faz, diz, pare­cen­do se diver­tir com a situa­ção. Você faz algu­ma coisa, não faz? Não diga, deixe que eu des­cu­bra. Bem, pas­tor pro­tes­tan­te já sabe­mos que não é, pro­fes­sor tam­bém não, pro­fes­sor tem as unhas sujas. Advogado usa gra­va­ta. Corretor da bolsa não, é ób­vio que não. Talvez ana­lis­ta de sis­te­mas, aque­la posi­ção cur­va­da na fren­te do com­pu­ta­dor… ummm… Desculpe.

Se eu tives­se olha­do nos seus olhos, o que teria visto, quan­do se refe­riu à colu­na ver­te­bral do sujei­to cur­va­do na fren­te do com­pu­ta­dor? Horror, pie­da­de, escár­nio? Entenderam agora por que evito, nos pri­mei­ros con­ta­tos, ler os olhos delas? Sim, eu podia ter visto ape­nas curio­si­da­de, mas pre­fi­ro não cor­rer ris­cos, vis­lum­bran­do algo que possa enfra­que­cer mi­nha audá­cia.

E você, sabe o que eu faço?

Unhas lim­pas sem esmal­te. Gosta de ler no banco da praça. Gosta de se molhar na chuva. Tem um pé maior do que o outro. Quer enten­der de poe­sia. É pre­gui­ço­sa. Indícios per­tur­ba­do­res.

Dá para per­ce­ber?

Pode ser mode­lo foto­grá­fi­co.

Dá para per­ce­ber?

Ou dona de casa ocio­sa e frus­tra­da que fre­quen­ta uma aca­de­mia onde faz dança, alon­ga­men­to, mus­cu­la­ção, ginás­ti­ca loca­li­za­da para for­ta­le­cer os glú­teos. A, a —

A bunda, é essa a pala­vra que você está pro­cu­ran­do? A bunda o quê?

Depois dos seios, é a parte mais peri­cli­tan­te do corpo, acres­cen­to.

Fico um pouco sur­pre­so, com a sua natu­ra­li­da­de ao usar aque­la pala­vra chula num diá­lo­go com um des­co­nhe­ci­do, não obs­tan­te eu este­ja farto de saber que aos cor­cun­das não se con­ce­dem eufe­mis­mos. Nem ­outras deli­ca­de­zas: é comum arro­ta­rem e pei­da­rem dis­trai­da­men­te na minha pre­sen­ça.

Dá para per­ce­ber?, ela repe­te.

Ou então não é nada disso, tem uma ofi­ci­na de enca­der­na­ção de ­livros em casa.

Você não res­pon­deu. Dá para per­ce­ber?

O quê?

Que tenho um pé maior do que o outro?

Mostre‑me a palma da sua mão. Vejo que está pla­ne­jan­do fazer uma via­gem. Há uma pes­soa que a deixa preo­cu­pa­da.

Acertou nova­men­te. Qual é o tru­que?

Todo mundo tem um pé maior do que o outro, pla­ne­ja fazer uma via­gem, tem uma pes­soa que lhe com­pli­ca a vida.

É o pé direi­to.

Ela esti­ca a perna, mos­tra o pé. Usa um sapa­to sem salto, de couro, com for­ma­to de tênis.

Mas afi­nal, qual é a minha pro­fis­são?

Encadernação. Uma ­mulher que mexe com ­li­vros tem um encan­to a mais.

Agora errou. Não faço nada. Mas você acer­tou uma parte. Sou pre­gui­ço­sa. Esse é um dos meus indí­cios per­tur­ba­do­res?

É o prin­ci­pal, res­pon­do. Um famo­so poeta acha­va a pre­gui­ça um esta­do deli­cio­so, uma sen­sa­ção que dei­xa­va em segun­do plano a poe­sia, a ambi­ção, o amor. O outro sinal sin­gu­lar é gos­tar de ler num banco da praça. E final­men­te, gos­tar de se ­molhar na chuva.

Não digo a ela que as pes­soas pre­gui­ço­sas ­so­frem de impul­sos ins­tin­ti­vos de rea­li­zar algu­ma coisa, mas não sabem o quê. O fato de a Vênus ser pre­gui­ço­sa era, para mim, a sorte gran­de. Todas as mulhe­res que con­quis­tei eram pre­gui­ço­sas, sonhan­do fazer ou apren­der algu­ma coisa. Mas, prin­ci­pal­men­te, gos­ta­vam de con­ver­sar — falar e ouvir —, o que na ver­da­de era o mais impor­tan­te. Voltarei a isso.

Você é pro­fes­sor de algu­ma coisa, as suas unhas lim­pas me con­fun­di­ram.

Pode me cha­mar de pro­fes­sor.

Está bem, pro­fes­sor. E você? Vai me cha­mar de quê? Preguiçosa?

Já uso um nome para você. Vênus.

Vênus? Horrível.

A sua Vênus é a de Botticelli.

A pin­tu­ra? Nem me lem­bro mais como ela é.

É só se olhar no espe­lho.

Elogio bobo. Por que gos­tar de se ­molhar na chuva é um indí­cio per­tur­ba­dor?

Isso eu não vou lhe dizer hoje.

O livro está aqui, não dava mesmo para ler na chuva, diz ela tiran­do um livro do bolso da capa. Tchau.

Só nessa hora vejo os olhos azuis dela: neu­tros. Já se acos­tu­ma­ra com o meu aspec­to e con­se­gui­ra, tal­vez, notar que o meu rosto não era feio como o corpo.

Esse foi o nosso pri­mei­ro encon­tro. A Vênus gos­tar de poe­sia iria me aju­dar, mas se ela apre­cias­se músi­ca, ou tea­tro, ou cine­ma, ou artes plás­ti­cas, isso não afe­ta­ria em nada a minha estra­té­gia. Negrinha só gos­ta­va de músi­ca e não deu muito tra­ba­lho, pois gos­­ta­va de con­ver­sar, prin­ci­pal­men­te de quei­xar‑se do homem que vivia com ela antes de mim, que só fala­va de coi­sas prá­ti­cas, pla­nos a curto, médio e longo prazo, horá­rios, ano­ta­ções nas agen­das, pro­vi­dên­cias, rela­ção custo‑bene­fí­cio dos gas­tos que rea­li­za­vam, fosse uma via­gem ou a com­pra de um espre­me­dor de alho, e quan­do ela que­ria con­ver­sar sobre outro assun­to ele sim­ples­men­te não ouvia.

Além de bom ouvin­te, posso dizer coi­sas inte­res­san­tes, tri­via­li­da­des de alma­na­que e tam­bém coi­sas mais pro­fun­das, que apren­di nos ­livros. Passei a vida lendo e me infor­man­do. Enquanto os ­outros chu­ta­vam bolas, dan­ça­vam, namo­ra­vam, pas­sea­vam, diri­giam car­ros ou moto­ci­cle­tas, eu fica­va em casa con­va­les­cen­do de ope­ra­ções fra­cas­sa­das e lendo. Aprendi muito, dedu­zi, pen­sei, cons­ta­tei, des­co­bri. Tornei‑me um tanto pro­li­xo, é ver­da­de. Mas cres­ci, duran­te o meu cal­vá­rio de som­bras, estu­dan­do e pla­ne­jan­do a manei­ra de alcan­çar os meus obje­ti­vos.

Um sujei­to que fez vinte ope­ra­ções na colu­na, um fra­cas­so atrás do outro, tem que ter, entre as suas prin­ci­pais vir­tu­des, a per­ti­ná­cia. Descubro, com o por­tei­ro do pré­dio onde ela mora, que Agnes é o nome pelo qual Vênus é conhe­ci­da no mundo dos mor­tais. Deixo um enve­lo­pe com um bilhe­te para ela na por­ta­ria do seu pré­dio.

O bilhe­te: Suspeito que leu pouca poe­sia. Você lê os ­livros na praça e vai pulan­do pági­nas, devem ser con­tos, nin­guém lê poe­sia assim. Preguiçosos gos­tam de ler con­tos, aca­bam um conto na pági­na vinte e pulam para aque­le que está na pági­na qua­ren­ta, no fim leem ape­nas uma parte do livro. Você pre­ci­sa ler os poe­tas, nem que seja à manei­ra daque­le escri­tor malu­co para quem os ­livros de poe­sia mere­cem ser lidos ape­nas uma vez e ­depois des­truí­dos para que os poe­tas mor­tos deem lugar aos vivos e não os dei­xem petri­fi­ca­dos. Posso fazer você enten­der de poe­sia, mas terá que ler os ­livros que eu indi­car. Você pre­ci­sa de mim, mais do que pre­ci­sa da sua mãe ou do seu cachor­ro lulu. Este é o núme­ro do meu tele­fo­ne. P.S. Você tem razão, é ­melhor se cha­mar Agnes do que Vênus. Assinei: Professor.

Fazer a paler­ma enten­der de poe­sia! Mas ela gos­ta­va desse gêne­ro lite­rá­rio, e o assun­to das nos­sas con­ver­sas seria, por­tan­to, poe­sia. As coi­sas que um cor­cun­da é capaz de fazer para que uma ­mulher se apai­xo­ne por ele.

Quando estou pro­cu­ran­do uma nova namo­ra­da, a anti­ga é des­car­ta­da, pre­ci­so estar con­cen­tra­do no obje­ti­vo prin­ci­pal. Estava na hora de dizer adeus à Negrinha.

Astuto, escre­vo uns ­óbvios poe­mas de amor para Agnes, e deixo‑os impres­sos, de pro­pó­si­to, na gave­ta da mesa do com­pu­ta­dor, um local que Negrinha sem­pre vas­cu­lha. Ela vive fuçan­do ­minhas coi­sas, é muito ciu­men­ta.

Negrinha fica furio­sa quan­do des­co­bre os poe­mas. Xinga‑me, pro­fe­re pala­vras duras, res­pon­di­das com do­çu­ra por mim. Esmurra o meu peito e a minha cor­cun­da, diz que me ama, que me odeia, enquan­to res­pon­do com pala­vras mei­gas. Li não sei onde que, numa sepa­ra­ção, aque­le que não ama é o que diz as coi­sas cari­nho­sas.

 Na ver­da­de, eu me inte­res­sei muito por Ne­grinha até ela ficar apai­xo­na­da por mim. Mas não estou nem nunca esti­ve apai­xo­na­do por ela, ou por qual­quer outra ­mulher com quem me envol­vi. Sou um cor­cun­da e não pre­ci­so me apai­xo­nar por ­mulher algu­ma, pre­ci­so que algu­ma ­mulher se apai­xo­ne por mim — e outra, e ­depois outra. Recordo os agra­dá­veis momen­tos que pas­sei com Ne­grinha, na cama, con­ver­san­do, ouvin­do músi­ca e mis­tu­ran­do nos­sas sali­vas. Dizem que esse líqui­do trans­pa­ren­te segre­ga­do pelas glân­du­las sali­va­res é insí­pi­do e serve ape­nas para flui­di­fi­car os ali­men­tos e faci­li­tar sua inges­tão e diges­tão, o que ape­nas com­pro­va que as pes­­soas não têm sen­si­bi­li­da­de para sen­tir nem mesmo o sabor da pró­pria sali­va, e pior ainda, falta‑lhes a neces­sá­ria suti­le­za gus­ta­ti­va para se deli­ciar com o gosto da sali­va do outro. Ao se mis­tu­ra­rem, as sali­vas adqui­rem um pala­dar ine­fá­vel, com­pa­rá­vel ape­nas ao néc­tar mito­ló­gi­co. Um mis­té­rio enzi­má­ti­co, como ­outros do nosso corpo.

Fico tris­te por ter feito Negrinha ­sofrer. Mas sou um cor­cun­da. Adeus, Negrinha, tua sali­va era delei­tá­vel e os teus olhos ver­des pos­suíam uma bele­za lumi­no­sa.

Agnes demo­ra uma sema­na para res­pon­der a minha carta.

O bilhe­te dela: Preciso do meu cachor­ro lulu, mas não pre­ci­so da minha mãe, tal­vez do talão de che­ques dela. Vou dar uma pas­sa­da aí.

Quando Agnes chega, já estou pre­pa­ra­do para rece­bê‑la. Como é que um cor­cun­da se pre­pa­ra para rece­ber uma ­mulher linda que deve ser ardua­men­te indu­zi­da a se entre­gar a ele? Fazendo pre­via­men­te os seus pla­nos, todos con­tin­gen­tes, como é da essên­cia dos pla­nos; per­ma­ne­cen­do tran­qui­lo, como, aliás, deve­mos ficar quan­do rece­be­mos o cirur­gião ou o bom­bei­ro que vai con­ser­tar a des­car­ga do banhei­ro; usan­do rou­pas lar­gas e pro­je­tan­do o peito para a fren­te; per­ma­ne­cen­do aler­ta, para que o nosso rosto se mos­tre sem­pre bon­do­so e o nosso olhar per­ma­nen­te­men­te doce. Um cor­cun­da dis­traí­do, mesmo não sendo qua­si­mo­des­co e tendo um rosto boni­to, como é o meu caso, exibe sem­pre um sem­blan­te sinis­tro.

Agnes entra e obser­va a sala com um argu­to olhar femi­ni­no. Moro aqui há um ano ape­nas, mudo de casa cons­tan­te­men­te, e a minha sala de estar, ape­sar de ele­gan­te­men­te mobi­lia­da, tem algo vaga­men­te trun­ca­do em seu aspec­to, como se nela fal­tas­sem lumi­ná­rias, ­móveis sem ser­ven­tia e ­outros orna­tos inú­teis que resul­tam das ocu­pa­ções pro­lon­ga­das dos espa­ços domés­ti­cos. As estan­tes de madei­ra nobre — que abri­gam meus ­livros, cds e dvds de cine­ma, músi­ca, ópera e artes plás­ti­cas —, que sem­pre me acom­pa­nham nas mudan­ças, são pré‑mol­da­das e ­fá­ceis de desar­mar.

Agnes para na fren­te das estan­tes que ocu­pam as pare­des da sala e per­gun­ta, sem se virar para mim:

Este apar­ta­men­to é seu?

É alu­ga­do.

Que ­livros são aque­les men­cio­na­dos no seu bilhe­te?

Você sabe­rá, opor­tu­na­men­te. É um pro­gra­ma sem tempo deter­mi­na­do de dura­ção. Diariamente você lerá um poema. Os poe­tas nunca serão repe­ti­dos. Você terá o dia intei­ro para ler o poema. À noite você vem aqui em casa, jan­ta­mos e você me fala­rá sobre a poe­sia esco­lhi­da. Ou do que você qui­ser, se não sen­tir von­ta­de de falar do poema. Tenho a ­me­lhor cozi­nhei­ra da cida­de. Quer beber algu­ma coisa?

Ela, que até então se man­ti­nha de cos­tas para mim, virou‑se subi­ta­men­te, excla­man­do:

Não sei o que estou fazen­do aqui. Acho que ­fiquei malu­ca. Vou virar estu­dan­te? É isso?

Você é uma ­mulher boni­ta, mas sente um vazio den­tro de você, não sente?

Tchau.

Mais de vinte ope­ra­ções dolo­ro­sas para cor­ri­gir uma cor­cun­da que não saiu do lugar. Captações cons­tan­tes de expres­sões fur­ti­vas de des­pre­zo, cha­co­tas osten­si­vas — ei, cor­cun­di­nha, posso pas­sar a mão nas suas cos­tas para dar sorte? —, refle­xos diá­rios e imu­tá­veis de nudez repug­nan­te no espe­lho em que me con­tem­plo, para não falar do que leio no olhar das mulhe­res, antes de apren­der a espe­rar o momen­to certo para ler o olhar das mulhe­res, se tudo isso não aca­bou comi­go, que efei­to pode ter um tchau dito de esgue­lha segui­do de uma reti­ra­da des­de­nho­sa? Nenhum.

Para sele­cio­nar o que Agnes deve ler, deci­do, por como­dis­mo, usar os livros que tenho na minha estan­te. Penso em come­çar com um poeta clás­si­co fes­ce­ni­no, mas é cedo para lhe apre­sen­tar poe­mas que dizem ques­to è pure un bel cazo lungo e gros­so ou então fot­ti­mi e fá de me ciò che tu vuoi, o in potta o in cul, ch’io me ne curo poco, ela pode­ria ficar assus­ta­da, este poeta obs­ce­no é para ser usado numa fase em que a ­mulher já foi con­quis­ta­da. Esqueci de dizer que esco­lho poe­tas já mor­tos, não obs­tan­te exis­tam poe­tas vivos muito melho­res do que cer­tos poe­tas con­sa­gra­dos que já bate­ram as botas, mas essa minha deci­são é dita­da pela con­ve­niên­cia, os melho­res mor­tos tive­ram opor­tu­ni­da­de de encon­trar o cami­nho das ­minhas estan­tes, e não posso dizer o mesmo dos vivos.

Envio para Agnes um poema que fala que a arte de per­der não é difí­cil de apren­der. Sei que isso irá pro­vo­car uma rea­ção. Os pre­gui­ço­sos vivem per­den­do coi­sas, e não falo ape­nas de via­gens.

Chove no pri­mei­ro dia do pro­gra­ma. Assim que entra na minha casa Agnes per­gun­ta:

Como é que você sabia que, para mim, per­der as coi­sas é sem­pre um desas­tre, ape­sar de todas as racio­na­li­za­ções que faço?

Da mesma manei­ra que eu sabia que você tem um pé maior do que o outro. Vamos falar mais sobre o poema? Podemos jan­tar ­depois.

Amanhã. Outra coisa, o pé da Vênus de Botticelli é muito feio, o meu é mais boni­to. Tchau.

O cor­cun­da sabe como se deita. Nós nos dei­ta­mos de lado, mas acor­da­mos no meio da noite esten­di­dos em decú­bi­to dor­sal, com dor nas cos­tas. Deitar de bar­ri­ga para baixo exige que uma das per­nas seja dobra­da e o braço opos­to enfia­do sob o tra­ves­sei­ro. Nós, cor­cun­das, acor­da­mos ­várias vezes no meio da noite, pro­cu­ran­do uma posi­ção cômo­da, ou menos des­con­for­tá­vel, ator­men­ta­dos por pen­sa­men­tos so­tur­nos que nos atra­pa­lham o sono. Um cor­cun­da não esque­ce, pensa sem­pre na sua des­gra­ça, as pes­soas são o que são por­que um dia fize­ram uma esco­lha, se tives­sem feito outra o seu des­ti­no seria dife­ren­te, mas um cor­cun­da de nas­cen­ça não fez nenhu­ma esco­lha, não inter­fe­riu na sua sorte, não lan­çou os dados. Essa cons­ta­ta­ção inter­mi­ten­te nos tira o sono, nos força a sair da cama. Além disso, gos­ta­mos de ficar de pé.

Quando Agnes chega, no dia seguin­te, a cozi­nhei­ra já está pro­vi­den­cian­do o jan­tar. Um sujei­to com as vér­te­bras no lugar pode levar a ­mulher que quer con­quis­tar para comer um cachor­ro‑quen­te no bote­quim. Eu não posso me dar a esse luxo.

A poeta… É poeta ou poe­ti­sa?

O dicio­ná­rio diz poe­ti­sa. Mas pode cha­mar todos de poe­tas, ­homens e mulhe­res.

A poeta diz que ao con­ver­sar com o homem que amava per­ce­beu que ele escon­dia um tre­mor, o tre­mor do seu sofri­men­to mor­tal. Eu senti isso quan­do con­ver­sa­va com você.

Interessante, eu disse.

Você acha... chato ser cor­cun­da?

Já me acos­tu­mei. Além disso, vi sem afli­ções todos os cor­cun­das de Notre Dame no cine­ma, conhe­ço todos os Ricardos iii — você sabia que o ver­da­dei­ro Ricardo iii não era cor­cun­da, como se pode dedu­zir da sua arma­du­ra que ficou pre­ser­va­da até nos­sos dias? —, sei de cor o poema do Dylan Thomas sobre um cor­cun­da no par­que. Con­templo o Corcovado da minha jane­la, toda noite.

Agnes me imita:

Interessante.

Peço a ela que leia para mim o novo poema que esco­lheu. Ela ­folheia o livro, lê mal, a cara enfia­da no livro. Não se pode ler de manei­ra decen­te enfian­do a cara no texto. E ler um poema é ainda mais difí­cil, os pró­prios poe­tas não sabem fazer isso.

Fale do poema.

A ­mulher lamen­ta a morte do homem que amava… O seu des­ti­no era cele­brar aque­le homem, a força, o bri­lho da ima­gi­na­ção dele, mas a ­mulher diz que per­deu tudo, esque­ceu tudo.

Você sen­tiu algu­ma coisa?

Uma certa tris­te­za. Esse poema me inco­mo­dou muito.

Fale mais, eu peço.

Agnes fala, eu ouço; fala, eu ouço. Apenas inter­ve­nho para pro­vo­cá‑la a falar mais. Como sei ouvir, isso é muito fácil. Fazê‑las falar e ouvi‑las é a minha táti­ca.

Acho que em russo deve ser mais ator­men­ta­dor ainda, diz ela.

Esse é o pro­ble­ma da tra­du­ção poé­ti­ca, res­pon­do.

O lei­tor ou sabe todas as lín­guas do mundo, diz Agnes, ou tem que se habi­tuar com isto: os poe­mas fica­rem menos tris­tes ou menos ale­gres ou menos boni­tos ou menos sig­ni­fi­ca­ti­vos, ou menos et cete­ra quan­do tra­du­zi­dos. Menos sem­pre.

Um poeta ame­ri­ca­no disse que poe­sia é o que se perde na tra­du­ção.

Quem foi?

Você vai ter que des­co­brir. Que tal jan­tar­mos?

Não vou des­cre­ver as igua­rias do jan­tar, os ­vi­nhos de nobre ori­gem que bebe­mos, as espe­ci­fi­ca­ções dos copos de cris­tal que usa­mos, mas posso dizer que a mesa do ­melhor gour­met da cida­de não é ­melhor do que a minha. Meu pai era ati­la­do em maté­ria de negó­cios e quan­do mor­reu — minha mãe mor­reu antes, creio que não supor­tou a minha des­gra­ça, a des­gra­ça dela — me dei­xou em situa­ção con­for­tá­vel. Não sou rico, mas posso mudar, quan­do neces­sá­rio, de uma bela resi­dên­cia para outra ainda ­melhor, tenho uma boa cozi­nhei­ra e tempo ocio­so para rea­li­zar meus pla­nos.

Chamo um táxi. Acompanho‑a até a sua casa, ape­sar dos pro­tes­tos de que pode­ria ir sozi­nha. Volto muito can­sa­do.

Saio muito cedo da cama, em dúvi­da sobre o outro poeta que indi­ca­rei. Escolher os ­livros faz com que eu me sinta ainda mais safa­do, como um des­ses scho­lars sabi­chões que ­ganham a vida crian­do câno­nes, ou ­melhor, catá­lo­gos de auto­res impor­tan­tes. Na ver­da­de, como já disse, só quero usar os auto­res que tenho nas ­minhas estan­tes, e mesmo as estan­tes de um cor­cun­da não têm, neces­sa­ria­men­te, os melho­res auto­res.

Peço a Agnes que leia o poema em que o autor des­cre­ve ale­go­ri­ca­men­te uma cuni­lín­gua.

Leia, por favor, este poema para mim.

Ela lê. Seu fran­cês é per­fei­to.

Fale sobre o poema.

O poeta, ­depois de dizer que a sua amada está nua como uma escra­va mou­ris­ca, con­tem­pla as coxas, os qua­dris da ­mulher, o seu peito e a sua bar­ri­ga, ces grap­pes de ma vigne, obser­va embe­ve­ci­do a cin­tu­ra estrei­ta que acen­tua a pél­vis femi­ni­na, mas o que o deixa exta­sia­do e sus­pi­ro­so é o ver­me­lho sober­bo do rosto da ­mulher.

Foi assim que você enten­deu? O poeta vê a pél­vis e exta­sia‑se com o ruge do rosto? Lembre‑se, ele está fitan­do a por­ção infe­rior do tron­co da ­mulher, a parte rouge super­be que chama a sua aten­ção só pode ser a vagi­na. Apenas ele não era fes­ce­ni­no o bas­tan­te para des­pre­zar as metá­fo­ras.

Pode ser. Qual é o menu de hoje?

Foi você quem disse que quer enten­der.

Qual é o menu de hoje?

Grenouille.

Adoro.

 

 

Já se pas­sa­ram ­vários dias desde o nosso pri­mei­ro encon­tro. Mantenho o con­tro­le, a paciên­cia é uma das maio­res vir­tu­des, e isso vale tam­bém para aque­les que não são cor­cun­das. Hoje, por exem­plo, quan­­do Agnes, ao sen­tar‑se na minha fren­te, mos­tra os joe­lhos, sinto desejo de beijá‑los, mas nem ­sequer olho‑os por muito tempo.

Agnes pega o livro.

Isto aqui: trans­for­ma‑se o ama­dor na coisa ama­da, por vir­tu­de de muito ima­gi­nar… que mais dese­ja o corpo de alcan­çar? Que diabo o poeta quer dizer com isso?

Agnes, você leu o poema de má von­ta­de. Foi você que esco­lheu esse poema. Havia ­outros mais ­fáceis.

Podemos dizer que é um sone­to solip­so?

Pelo pra­zer da ali­te­ra­ção?

Também. Ou o cha­ma­ría­mos de sone­to ascé­ti­co? Ou sone­to neo­pla­tô­ni­co? Você vê, já estou pare­cen­do o meu pró­prio pro­fes­sor.

Pode‑se ter uma filo­so­fia sem conhe­cer o filó­so­fo que a con­ce­beu? per­gun­to.

O rosto dela fica imó­vel, ela cos­tu­ma ficar assim, sem mexer os olhos, muito menos os ­lábios, essas mími­cas de quem quer demons­trar que está medi­tan­do. É como se tives­se fica­do surda. Mas logo em segui­da reco­me­ça a falar com entu­sias­mo. E eu ouço. Saber ouvir é uma arte, e gos­tar de ouvir faz parte dela. Quem finge gos­tar de ouvir é logo des­co­ber­to em sua impos­tu­ra.

Não toco nela, nesse dia, nem nos pró­xi­mos dias.

Há mulhe­res de pele bran­ca baça, ­outras de uma bran­cu­ra quase azi­nha­vra­da, ­outras des­co­ra­das como gesso ou fari­nha de rosca, mas a pele bran­ca de Agnes tem uma radiân­cia esplên­di­da, dá‑me von­ta­de de mordê‑la, cra­var os den­tes nos seus bra­ços, suas per­nas, seu rosto, ela tem um rosto para ser mor­di­do, mas con­te­nho‑me. Dou‑lhe, para ler, outro poema eró­ti­co. Confesso que corro um risco cal­cu­la­do. Como ela rea­gi­rá ao ler — a lín­gua lambe as péta­las ver­me­lhas da rosa plu­ria­ber­ta, a lín­gua lavra certo ocul­to botão, e vai tecen­do lépi­das varia­ções de leves rit­mos, e lambe, lam­bi­lon­ga, lam­bi­len­ta, a lico­ri­na gruta cabe­lu­da? Agnes mudou de assun­to quan­do ten­tei fazer uma exe­ge­se (é isso que ela quer, não é? Entender?) eró­ti­ca do poema da cuni­lín­gua, lido por ela dois dias antes. Como se com­por­ta­ria agora, ao ler outro poema com o mesmo tópi­co e ainda mais ousa­do?

Pensei que a poe­sia não mos­tras­se isso, que fela­ção e cuni­lín­gua fos­sem cli­chês usa­dos ape­nas nos fil­mes, diz Agnes, após ler o poema. Não sei se gos­tei. Lambe lam­bi­lon­ga lam­bi­len­ta é uma ali­te­ra­ção engra­ça­da. Mas lico­ri­na gruta cabe­lu­da é hor­rí­vel. O pró­xi­mo vai ser assim?

Não per­ce­bo as ver­da­dei­ras impli­ca­ções con­ti­das no que ela me diz. Desagrado, decep­ção? Mera curio­si­da­de? Uma aber­tu­ra? É ­melhor não me apro­fun­dar.

 

 

Estamos nesse jogo há mui­tos dias.

Lemos um poema sobre um sujei­to que per­gun­ta se ousa­rá comer um pês­se­go.

Comer pês­se­gos?

Faço o jogo que ela quer:

Digamos que seja sobre a velhi­ce.

E ­velhos não têm cora­gem de comer pês­se­gos?

Creio que é por­que ­velhos usam den­ta­du­ra.

Pensei que poe­mas sem­pre falas­sem de coi­sas belas ou trans­cen­den­tais.

A poe­sia cria a trans­cen­dên­cia.

Odeio quan­do você se exibe.

Não estou me exi­bin­do. As pró­te­ses não são ape­nas a coisa que repre­sen­tam. Mas umas são mais sig­ni­fi­ca­ti­vas do que ­outras. Implantes de pênis mais do que den­ta­du­ras.

Pernas mecâ­ni­cas mais do que unhas pos­ti­ças?

Marca‑pas­sos car­día­cos mais do que arte­fa­tos audi­­ti­vos.

Seios de sili­co­ne mais do que peru­cas?

Isso. Mas sem­pre trans­cen­den­do a coisa e o sujei­to, algo fora dele.

Esse implan­te é muito usado? O do…

Do pênis? Coloque‑se na posi­ção de um homem que faz esse implan­te. Veja a sin­ge­le­za poé­ti­ca desse meta­fí­si­co gesto de revol­ta con­tra o vene­no do tem­po, con­tra a soli­dão, a ane­do­nia, a tris­te­za.

Posso fazer uma per­gun­ta imper­ti­nen­te?

Pode.

Você usa, ou ­melhor, usa­ria essa pró­te­se?

Sou um cor­cun­da ver­da­dei­ro. Um cor­cun­da não pre­ci­sa disso.

Poderia dizer a ela que um cor­cun­da de nas­cen­ça, como eu, ou subli­ma os seus dese­jos para sem­pre — nesse caso, para que o implan­te? — ou então, na idade adul­ta, como eu, que até os vinte e oito anos nunca tive uma rela­ção sexual, passa a ser domi­na­do por uma lubri­ci­da­de paro­xís­ti­ca que faz o seu pau ficar duro ao menor dos estí­mu­los. Um cor­cun­da ou fica broxa ou arde numa foguei­ra de las­cí­via que não arre­fe­ce um ins­tan­te ­sequer, como o calor do infer­no. Mas isso ela com­pro­va­rá opor­tu­na­men­te.

Não há nenhu­ma den­ta­du­ra no poema, diz Agnes, nem implan­te de qual­quer natu­re­za.

Os poe­tas nunca mos­tram tudo cla­ra­men­te. Mas a den­ta­du­ra está lá, para quem olhar bem.

A velhi­ce está lá, e o medo da morte.

E o que é a velhi­ce num homem?, per­gun­to.

Concordo: é den­ta­du­ra, cal­ví­cie, a cer­te­za de que as ­sereias não can­tam mais para ele. Sim, e tam­bém o medo de agir. Ousarei?, o poeta per­gun­ta o tempo intei­ro. Ele odeia os hor­ren­dos sin­to­mas da velhi­ce, mas não ousa se matar. Ousarei comer um pês­se­go? sig­ni­fi­ca, terei cora­gem de aca­bar com essa merda que é a minha vida? O pês­se­go é uma metá­fo­ra da morte. Mas acei­to que exis­ta tam­bém uma den­ta­du­ra no meio. Estou apren­den­do a en­­­ten­der poe­sia?

Sim. O poema pode ser enten­di­do como você qui­ser, o que já é um avan­ço, e ­outras pes­soas pode­rão, ou não, enten­dê‑lo da mesma manei­ra que você. Mas isso não tem a menor impor­tân­cia. O que impor­ta é que o lei­tor deve sen­tir o poema e o que ­alguém sente ao ler um poema é exclu­si­vo, não é igual ao sen­ti­men­to de ­nenhum outro lei­tor. O que neces­si­ta ser enten­di­do é o conto, é o roman­ce, esses gêne­ros lite­rá­rios meno­res, ­cheios de sim­bo­lis­mos ­óbvios.

Eu acho que você fala ­demais, ela diz, bem‑humo­ra­da.

Caveat: se uma ­mulher não tiver um míni­mo de humor e inte­li­gên­cia eu não con­si­go fodê‑la. Como pode­ria con­ver­sar com ela? Isso é pés­si­mo para um cor­cun­da las­ci­vo que enfren­ta uma ver­da­dei­ra pe­drei­ra para con­quis­tar mulhe­res, cuja pri­mei­ra im­pres­são ao vê‑lo pode­ria ser a mesma que ­teriam ao ver um basi­lis­co, se esse rép­til cao­lho de bafo mor­tal exis­tis­se. Já me ima­gi­na­ram inves­tin­do, cego pelo dese­jo, dias e dias numa con­quis­ta para ­depois, no meio da emprei­ta­da, cons­ta­tar que estou lidan­do com uma estú­pi­da, que me fará bro­xar na hora H? Quando um cor­cun­da broxa uma vez, broxa para o resto da vida, como se ino­cu­la­do por uma bac­té­ria mul­tir­re­sis­ten­te. Dirão, se Agnes fosse inte­li­gen­te, ela me acha­ria pro­li­xo e exi­bi­cio­nis­ta. Mas na ver­da­de eu ape­nas a pro­vo­ca­va para que ela falas­se. Ela esta­va impres­sio­na­da con­si­go, acre­di­ta­va que esta­va apren­den­do não ape­nas a ver, mas a enten­der que a pes­soa pode ser míope, porém não pode ficar com os olhos fecha­dos.

Outra coisa: assim como para o poeta escre­ver é esco­lher — criar ­opções e esco­lher —, tam­bém eu tinha que criar ­opções e esco­lher.

Estou com o meu mem­bro rígi­do. A tesu­ra e o tama­nho do meu pênis dão‑me uma con­fian­ça, uma cora­gem muito gran­de, maior mesmo do que a minha astú­cia cere­bri­na. Sinto von­ta­de de colo­car a mão dela no meu pau, mas ainda não che­gou o momen­to para isso. A alter­na­ti­va ainda não foi cria­da.

Não sei se já disse que o nome da minha cozi­nhei­ra é Maria do Céu. Ela mere­ce esse nome, e esta noite nos brin­da com uma mag­ní­fi­ca refei­ção.

Depois do jan­tar fica­mos con­ver­san­do até de madru­ga­da. Pergunto algu­mas vezes, não é tarde para você? E ela res­pon­de que está sem sono e sem von­ta­de de ir para casa. Tomamos vinho, mas tenho o cui­da­do de evi­tar que ela se embria­gue. A luci­dez, a minha e a dela, é essen­cial ao meu plano.

Conto ane­do­tas sem graça, que a fazem rir, exa­ta­men­te por­que não têm a menor graça. Pela pri­mei­ra vez ela fala de assun­tos pes­soais, os menos com­ple­xos, como a rabu­gi­ce da sua mãe. Há mulhe­res que mesmo tendo saído da ado­les­cên­cia con­ti­nuam man­ten­do o res­sen­ti­men­to con­tra a mãe. Ouço tudo, aten­to. Agnes fala tam­bém sobre o seu anti­go namo­ra­do, que era uma boa pes­soa mas não con­ver­sa­va com ela. Certa oca­sião, foram jan­tar fora e ela deci­diu que fica­ria cala­da a noite intei­ra. No res­tau­ran­te o namo­ra­do con­sul­tou o menu, suge­riu os pra­tos, fez os pedi­dos e, ­depois de ser­vi­dos, per­gun­tou a Agnes se a comi­da dela esta­va gos­to­sa. Não disse mais nada, e nem ­sequer per­ce­beu o silên­cio de Agnes. Talvez tives­se repa­ra­do se ela tives­se recu­sa­do a comi­da, mas ela esta­va com fome. Chegando em casa foram para a cama e fize­ram amor em silên­cio. Depois o namo­ra­do disse boa noite, minha que­ri­da, virou‑se para o lado e dor­miu.

Ouvi tudo aten­to, fazen­do comen­tá­rios neu­tros, mas ade­qua­dos, que ela inter­pre­ta­ria como um evi­den­te inte­res­se da minha parte pelo que ela dizia e sen­tia.

Escolho outro poeta de lín­gua ingle­sa. Não tenho pre­di­le­ção pela lín­gua ingle­sa, mas cul­ti­vo o ­inglês pela mesma razão que Descartes sabia latim. Agnes chega com uma cesta de tan­ge­ri­nas.

Nunca tem tan­ge­ri­na na sua casa.

Não é época de tan­ge­ri­na.

Mas eu achei. Escolhi este poema.

E então?

O poeta diz que conhe­ce a noite, andou e anda na chuva, além das luzes da cida­de, sem olhar para as pes­soas, sem von­ta­de de dar expli­ca­ções, ima­gi­na os ruí­dos das casas dis­tan­tes; o tempo que o reló­gio marca não está erra­do nem certo. Sabe que estou gos­tan­do disto?

Por quê?

Eu que­ria enten­der o que os poe­tas dizem, e apren­di com você que isso é secun­dá­rio, diz Agnes. Todo texto lite­rá­rio tem a capa­ci­da­de de gerar dife­ren­tes lei­tu­ras, mas, além dessa rique­za de sig­ni­fi­ca­dos, a poe­sia tem a van­ta­gem de ser mis­te­rio­sa mes­mo quan­do diz que dois e dois são qua­tro.

 Você tem razão. E, prin­ci­pal­men­te, a poe­sia nunca é total­men­te con­su­mi­da. Por mais que você devo­re um poema, o sen­ti­men­to que ele pro­vo­ca ­jamais se esgo­ta.

Ai que vida com­ple­xa, diz Agnes, fin­gin­do sus­pi­rar.

Vai ver é isso, eu digo, tocan­do de leve no seu braço. Ela se afas­ta do con­ta­to com natu­ra­li­da­de, sem drama.

Isso o quê?

A vida é com­ple­xa.

É isso o que os poe­tas dizem?

Não sei. Vamos jan­tar.

Será que fiz bes­tei­ra, tocan­do‑a? penso, enquan­to come­mos as delí­cias gas­tro­nô­mi­cas pre­pa­ra­das por dona Maria do Céu.

 

 

Estou há mui­tos dias nesta emprei­ta­da. Sinto que Agnes come­ça a ficar mais vul­ne­rá­vel. Mas, como diz a Bíblia, há um tempo certo para tudo, e ainda não está na hora de ­colher.

Existe uma poe­sia femi­ni­na?, per­gun­ta Agnes. Se ­alguém não sou­bes­se o nome do autor des­co­bri­ria que este verso — o sen­ti­men­to mais pro­fun­do sem­pre se mos­tra em silên­cio; não em silên­cio, mas em con­ten­ção — foi escri­to por uma ­mulher? Esta é uma frase mas­cu­li­na ou femi­ni­na?

Foi uma ­mulher que a escre­veu, mas pode­ria ter sido escri­ta por um homem.

Acabamos de jan­tar e esta­mos no meio da nossa con­ver­sa quan­do a cam­pai­nha toca. Maria do Céu vai abrir a porta e logo volta, com ar com­pun­gi­do, segui­da de Ne­grinha.

Não sabia que você tinha visi­ta, diz Negrinha.

Eu disse que o ­senhor esta­va com uma pessoa, pro­tes­ta Maria do Céu, que sabe que aquela apa­rição ines­pe­ra­da só pode cau­sar pro­ble­mas: ela tes­te­mu­nhou Negrinha esmur­rar a minha cor­cun­da quan­do lhe dei o bilhe­te azul.

Não ouvi, diz Negrinha, notan­do o livro sobre a mesa. Ah, poe­sia, vim atra­pa­lhar uma con­ver­si­nha sobre poe­sia? Esse demô­nio é cheio de tru­ques.

Agnes se levan­ta da cadei­ra.

Está na hora de ir embo­ra.

Você não me apre­sen­tou a sua amiga, diz Negrinha.

Em outra oca­sião, diz Agnes. Tchau.

O tchau de Agnes é sem­pre um mau sinal. Vou até a porta com ela.

Espera um pouco que vou pegar o livro.

Ela rece­be o livro e sai apres­sa­da, só tenho tem­po de dar um beijo no seu rosto.

É sem­pre a mesma mági­ca, diz Negrinha iro­ni­ca­men­te. O homem que sabe con­ver­sar sobre a bele­za da músi­ca, da pin­tu­ra, da poe­sia. E isso enga­na as tolas, não é? Funcionou comi­go. Música pra cá, poe­sia pra lá, quan­do a pár­voa abre o olho você já está enfian­do o pau nela.

Negrinha, para com isso.

Você é um escro­to. Aquela siri­gai­ta foi embo­ra antes que eu lhe dis­ses­se que gran­des­sís­si­mo filho da puta você é.

Negrinha...

Vim aqui com pena de você, achan­do que esta­va sozi­nho, mas não, encon­tro outra idio­ta sendo sedu­zi­da, a pró­xi­ma víti­ma. Ela sabe que ­depois que for comi­da você vai dar um pon­ta­pé na bunda dela?

Quer tomar algu­ma coisa? Senta aqui. Quer um vinho?

Água.

Trago um copo com água para ela. Negrinha bebe um gole. Agora está mais calma.

Acho que vou acei­tar aque­le vinho.

Coloco o copo e a gar­ra­fa de bor­deaux, o vinho que ela gosta, ao seu lado.

Quem é aque­la ­mulher? É a tal Vênus, para quem você escre­via poe­mas de amor?

Já lhe disse que aque­la Vênus era uma figu­ra fic­tí­cia.

Você disse que esta­va apai­xo­na­do por outra. Por essa siri­gai­ta, a clás­si­ca loura burra?

Ela é ruiva.

A mesma merda.

Negrinha esva­zia e volta a ­encher o copo de vinho.

E como é que você podia se apai­xo­nar por outra, se vivia me comen­do? Por que você me aban­do­nou? Você gos­ta­va de mim, você gosta de mim, quer ver?

Ela esten­de a mão, mas eu me afas­to.

Está com medo, não é? Quero ver você me dei­xar pegar no seu pau.

Ela bebe outro copo de vinho, num só gole.

Negrinha, lem­bre‑se de Heráclito...

Heráclito é o cara­lho, você nunca leu livro algum de filo­so­fia, leu esses folhe­tos para bar­bei­ros e mani­cu­ras.

Eu vou ter que sair, Negrinha.

Não me chame de Negrinha, meu nome é Bárbara.

Tenho que sair.

Está com medo de ir para a cama comi­go.

Tenho um com­pro­mis­so impor­tan­te.

Covarde.

Vou para o meu quar­to e come­ço a tro­car de roupa, rapi­da­men­te. Negrinha inva­de o quar­to. Pa­rece‑me um pouco embria­ga­da. Enquanto me visto apres­sa­do, ela se des­nu­da com o mesmo aço­da­men­to. Terminamos pra­ti­ca­men­te ao mesmo tempo. Negrinha deita‑se, nua, na cama, mos­tran­do para mim a ponta da sua lín­gua úmida.

Vem aqui con­ver­sar comi­go, ela pede.

Saio do quar­to cor­ren­do e desço pelas esca­das. Na rua pego o pri­mei­ro táxi que apa­re­ce.

 

 

Agnes desa­pa­re­ce por uns dois dias. Quando nos encon­tra­mos nova­men­te, ela me pare­ce calma, e dife­ren­te.

Gostei deste poema, diz Agnes.

Por quê?

Não sei. Talvez por­que tenha três ­linhas.

E o que a escri­to­ra diz nes­tas três ­linhas?

Isso inte­res­sa?, Agnes per­gun­ta. Ou o que impor­ta é o que eu senti?

Sim, o que você sen­tiu.

A poeta diz que não gosta de poe­sia, mas que ao lê‑la, com total des­pre­zo, des­co­bre na poe­sia, afi­nal, um lugar para a ver­da­de. Entendi algu­ma coisa, mas acho que ela quer dizer algo dife­ren­te. Fui toma­da por um sen­ti­men­to que não sei expli­car. É assim que deve ser, não é?

É.

Quem era aque­la ­mulher que veio aqui? Ela é muito boni­ta.

Dou um beijo, leve, no rosto de Agnes.

Você acha que eu posso namo­rar você?, ela per­gun­ta.

Acho que pode.

Você tem um rosto boni­to, mas é cor­cun­da. Como posso ser sua namo­ra­da?

Depois de algum tempo você nem per­ce­be­rá essa minha carac­te­rís­ti­ca físi­ca.

O que dirão os ­outros?

Os ­outros não sabe­rão, não des­con­fia­rão, não ima­gi­na­rão. Vamos morar em outro lugar. Diremos aos vizi­nhos que somos ­irmãos.

E quem era aque­la ­mulher? Tenho de admi­tir que ela é linda.

Deve ser algu­ma malu­ca.

Estou falan­do sério.

É uma ­mulher que cis­mou comi­go.

Eu não sou pre­gui­ço­sa.

Dou outro beijo nela, agora na boca.

Isto é muito bom, ela diz.

Pego‑a pelo braço e a con­du­zo gen­til­men­te para o quar­to. Tiramos nos­sas rou­pas em silên­cio.

Depois da entre­ga, ela sus­pi­ra esgo­ta­da. Deitado ao seu lado, sinto em minha boca o gosto delei­tá­vel da sua sali­va.

Promete que vai sem­pre con­ver­sar comi­go, diz Agnes, me abra­çan­do.

Vou morar com Agnes numa outra casa, em outro bair­ro.

 

A rua ensur­de­ce­do­ra uiva em volta de mim quan­do uma ­mulher toda de preto, cabe­los negros com­pri­dos, passa, alta e ­esguia, real­çan­do, em seus movi­men­tos, as belas per­nas alabas­tri­nas. (A vida copia a poe­sia.) Eu a sigo até onde ela mora. Tenho que criar uma estra­té­gia rebus­ca­da para me apro­xi­mar dela e con­se­guir o que pre­ci­so, tare­fa difí­cil, as mulhe­res, no pri­mei­ro con­ta­to, sen­tem repul­sa por mim.