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O Corcunda Vênus de Botticelli
O CORCUNDA E A VÊNUS DE BOTTICELLI
Esvoaçantes mechas de cabelos ruivos fustigados pelo vento e pela chuva, pele cremosa e radiante, é a Vênus de Botticelli andando pela rua. (Aquela que está na Uffizi, nascendo de uma concha, não a do Staatliche Museen, com fundo preto, que é semelhante mas tem os cabelos secos arrumados em torno da cabeça, descendo lisos pelo corpo.)
Não pensem que me gabo de uma perspicácia extraordinária, mas o fato é que se a mulher que observo estiver parada como uma estátua, sei qual é a cadência dos seus passos, quando ela se move. Entendo não só de músculos, mas também de esqueletos e, conforme a simetria da ossatura, prevejo a articulação dos tornozelos, dos joelhos e do ilíaco, que dão ritmo ao movimento do corpo.
A Vênus caminha sem se incomodar com a chuva, às vezes virando a cabeça para o céu a fim de molhar ainda mais o rosto, e, posso dizer, sem o menor ranço poético, que é o andar de uma deusa.
Tenho que criar uma estratégia rebuscada para me aproximar dela e conseguir o que preciso, tarefa difícil, as mulheres, no primeiro contato, sentem repulsa por mim.
Eu a sigo até onde ela mora. Vigio o prédio durante alguns dias. Vênus gosta de caminhar pela rua, e de ficar sentada na praça perto da sua casa, lendo. Mas a todo momento para, olha as pessoas, principalmente crianças, ou então dá comida aos pombos o que, de certa forma, me decepciona, os pombos, como os ratos, as baratas, as formigas e os cupins, não precisam de ajuda, eles permanecerão quando afinal as bactérias acabarem conosco.
Olhando‑a de longe, fico cada vez mais impressionado com a harmonia do seu corpo, o perfeito equilíbrio entre as partes que consolidam a sua inteireza — a extensão dos membros em relação à dimensão vertical do tórax; a altura do pescoço em relação ao rosto e à cabeça, a largura estreita da cintura combinada ao formato firme das nádegas e do peito. Preciso me aproximar dessa mulher o quanto antes. Estou correndo contra o tempo.
Num dia de chuva forte, sento‑me ao lado dela sob o aguaceiro, num banco da praça. Tenho que saber logo se ela gosta de conversar.
Hoje infelizmente a chuva não permite a leitura, digo.
Ela não responde.
Por isso você não trouxe um livro.
Ela finge que não ouve.
Insisto: Ele faz nascer o sol sobre bons e maus, e faz chover sobre justos e injustos.
A mulher então me fita rapidamente, porém mantenho meus olhos na sua testa.
Está falando comigo?
Deus faz chover sobre os justos e os… (Meus olhos na testa dela.)
Ah, você falava de Deus.
Ela se levanta. Em pé, sabe que fica em posição favorável para rechaçar os avanços de um intruso.
Não leve a mal, já vi que o senhor deve ser um desses evangélicos buscando salvar almas para Jesus, mas desista, sou um caso perdido.
Vou atrás dela, que se afasta lentamente.
Não sou um pastor protestante. Aliás, duvido que a senhora descubra o que faço.
Sou muito boa nisso. Mas hoje estou sem tempo, preciso ir a uma exposição de pintura.
Sua voz já demonstra menos desagrado. Ela possui a virtude da curiosidade, o que é muito bom para mim. E também outra qualidade essencial: gosta de conversar. Isso é melhor ainda.
Proponho‑me a acompanhá‑la e, após alguma hesitação, ela concorda. Caminhamos, ela um pouco separada de mim, como se não estivéssemos juntos. Tento ser o mais inconspícuo possível.
Na exposição, há apenas uma atendente, sentada numa mesa, lixando as unhas. Negrinha, a minha atual amante, diz que mulheres que lixam as unhas em público têm dificuldade para pensar, e o lixar das unhas as ajuda a refletir melhor, como aquelas que raciocinam com mais clareza quando tiram cravos do nariz na frente do espelho.
Enquanto olho os quadros com estudada indiferença, vou dizendo para ela: avant‑garde do século passado, traços abstratos espontâneos, subconscientes, subkandinski, prefiro um soneto de Shakespeare.
Ela não responde.
Estou querendo impressionar você.
Não foi o suficiente, mas falar em poesia ajudou um pouco, eu gostaria de entender de poesia.
Poesia não é para ser entendida, poesia não é bula de remédio. Não vou dizer isso a ela, por enquanto.
Que tal um expresso? ela pergunta.
Procuro um lugar onde possamos sentar. Sendo mais alta do que eu, a Vênus faz avultar a minha corcova quando ficamos de pé, lado a lado.
Agora vou descobrir o que você faz, diz, parecendo se divertir com a situação. Você faz alguma coisa, não faz? Não diga, deixe que eu descubra. Bem, pastor protestante já sabemos que não é, professor também não, professor tem as unhas sujas. Advogado usa gravata. Corretor da bolsa não, é óbvio que não. Talvez analista de sistemas, aquela posição curvada na frente do computador… ummm… Desculpe.
Se eu tivesse olhado nos seus olhos, o que teria visto, quando se referiu à coluna vertebral do sujeito curvado na frente do computador? Horror, piedade, escárnio? Entenderam agora por que evito, nos primeiros contatos, ler os olhos delas? Sim, eu podia ter visto apenas curiosidade, mas prefiro não correr riscos, vislumbrando algo que possa enfraquecer minha audácia.
E você, sabe o que eu faço?
Unhas limpas sem esmalte. Gosta de ler no banco da praça. Gosta de se molhar na chuva. Tem um pé maior do que o outro. Quer entender de poesia. É preguiçosa. Indícios perturbadores.
Dá para perceber?
Pode ser modelo fotográfico.
Dá para perceber?
Ou dona de casa ociosa e frustrada que frequenta uma academia onde faz dança, alongamento, musculação, ginástica localizada para fortalecer os glúteos. A, a —
A bunda, é essa a palavra que você está procurando? A bunda o quê?
Depois dos seios, é a parte mais periclitante do corpo, acrescento.
Fico um pouco surpreso, com a sua naturalidade ao usar aquela palavra chula num diálogo com um desconhecido, não obstante eu esteja farto de saber que aos corcundas não se concedem eufemismos. Nem outras delicadezas: é comum arrotarem e peidarem distraidamente na minha presença.
Dá para perceber?, ela repete.
Ou então não é nada disso, tem uma oficina de encadernação de livros em casa.
Você não respondeu. Dá para perceber?
O quê?
Que tenho um pé maior do que o outro?
Mostre‑me a palma da sua mão. Vejo que está planejando fazer uma viagem. Há uma pessoa que a deixa preocupada.
Acertou novamente. Qual é o truque?
Todo mundo tem um pé maior do que o outro, planeja fazer uma viagem, tem uma pessoa que lhe complica a vida.
É o pé direito.
Ela estica a perna, mostra o pé. Usa um sapato sem salto, de couro, com formato de tênis.
Mas afinal, qual é a minha profissão?
Encadernação. Uma mulher que mexe com livros tem um encanto a mais.
Agora errou. Não faço nada. Mas você acertou uma parte. Sou preguiçosa. Esse é um dos meus indícios perturbadores?
É o principal, respondo. Um famoso poeta achava a preguiça um estado delicioso, uma sensação que deixava em segundo plano a poesia, a ambição, o amor. O outro sinal singular é gostar de ler num banco da praça. E finalmente, gostar de se molhar na chuva.
Não digo a ela que as pessoas preguiçosas sofrem de impulsos instintivos de realizar alguma coisa, mas não sabem o quê. O fato de a Vênus ser preguiçosa era, para mim, a sorte grande. Todas as mulheres que conquistei eram preguiçosas, sonhando fazer ou aprender alguma coisa. Mas, principalmente, gostavam de conversar — falar e ouvir —, o que na verdade era o mais importante. Voltarei a isso.
Você é professor de alguma coisa, as suas unhas limpas me confundiram.
Pode me chamar de professor.
Está bem, professor. E você? Vai me chamar de quê? Preguiçosa?
Já uso um nome para você. Vênus.
Vênus? Horrível.
A sua Vênus é a de Botticelli.
A pintura? Nem me lembro mais como ela é.
É só se olhar no espelho.
Elogio bobo. Por que gostar de se molhar na chuva é um indício perturbador?
Isso eu não vou lhe dizer hoje.
O livro está aqui, não dava mesmo para ler na chuva, diz ela tirando um livro do bolso da capa. Tchau.
Só nessa hora vejo os olhos azuis dela: neutros. Já se acostumara com o meu aspecto e conseguira, talvez, notar que o meu rosto não era feio como o corpo.
Esse foi o nosso primeiro encontro. A Vênus gostar de poesia iria me ajudar, mas se ela apreciasse música, ou teatro, ou cinema, ou artes plásticas, isso não afetaria em nada a minha estratégia. Negrinha só gostava de música e não deu muito trabalho, pois gostava de conversar, principalmente de queixar‑se do homem que vivia com ela antes de mim, que só falava de coisas práticas, planos a curto, médio e longo prazo, horários, anotações nas agendas, providências, relação custo‑benefício dos gastos que realizavam, fosse uma viagem ou a compra de um espremedor de alho, e quando ela queria conversar sobre outro assunto ele simplesmente não ouvia.
Além de bom ouvinte, posso dizer coisas interessantes, trivialidades de almanaque e também coisas mais profundas, que aprendi nos livros. Passei a vida lendo e me informando. Enquanto os outros chutavam bolas, dançavam, namoravam, passeavam, dirigiam carros ou motocicletas, eu ficava em casa convalescendo de operações fracassadas e lendo. Aprendi muito, deduzi, pensei, constatei, descobri. Tornei‑me um tanto prolixo, é verdade. Mas cresci, durante o meu calvário de sombras, estudando e planejando a maneira de alcançar os meus objetivos.
Um sujeito que fez vinte operações na coluna, um fracasso atrás do outro, tem que ter, entre as suas principais virtudes, a pertinácia. Descubro, com o porteiro do prédio onde ela mora, que Agnes é o nome pelo qual Vênus é conhecida no mundo dos mortais. Deixo um envelope com um bilhete para ela na portaria do seu prédio.
O bilhete: Suspeito que leu pouca poesia. Você lê os livros na praça e vai pulando páginas, devem ser contos, ninguém lê poesia assim. Preguiçosos gostam de ler contos, acabam um conto na página vinte e pulam para aquele que está na página quarenta, no fim leem apenas uma parte do livro. Você precisa ler os poetas, nem que seja à maneira daquele escritor maluco para quem os livros de poesia merecem ser lidos apenas uma vez e depois destruídos para que os poetas mortos deem lugar aos vivos e não os deixem petrificados. Posso fazer você entender de poesia, mas terá que ler os livros que eu indicar. Você precisa de mim, mais do que precisa da sua mãe ou do seu cachorro lulu. Este é o número do meu telefone. P.S. Você tem razão, é melhor se chamar Agnes do que Vênus. Assinei: Professor.
Fazer a palerma entender de poesia! Mas ela gostava desse gênero literário, e o assunto das nossas conversas seria, portanto, poesia. As coisas que um corcunda é capaz de fazer para que uma mulher se apaixone por ele.
Quando estou procurando uma nova namorada, a antiga é descartada, preciso estar concentrado no objetivo principal. Estava na hora de dizer adeus à Negrinha.
Astuto, escrevo uns óbvios poemas de amor para Agnes, e deixo‑os impressos, de propósito, na gaveta da mesa do computador, um local que Negrinha sempre vasculha. Ela vive fuçando minhas coisas, é muito ciumenta.
Negrinha fica furiosa quando descobre os poemas. Xinga‑me, profere palavras duras, respondidas com doçura por mim. Esmurra o meu peito e a minha corcunda, diz que me ama, que me odeia, enquanto respondo com palavras meigas. Li não sei onde que, numa separação, aquele que não ama é o que diz as coisas carinhosas.
Na verdade, eu me interessei muito por Negrinha até ela ficar apaixonada por mim. Mas não estou nem nunca estive apaixonado por ela, ou por qualquer outra mulher com quem me envolvi. Sou um corcunda e não preciso me apaixonar por mulher alguma, preciso que alguma mulher se apaixone por mim — e outra, e depois outra. Recordo os agradáveis momentos que passei com Negrinha, na cama, conversando, ouvindo música e misturando nossas salivas. Dizem que esse líquido transparente segregado pelas glândulas salivares é insípido e serve apenas para fluidificar os alimentos e facilitar sua ingestão e digestão, o que apenas comprova que as pessoas não têm sensibilidade para sentir nem mesmo o sabor da própria saliva, e pior ainda, falta‑lhes a necessária sutileza gustativa para se deliciar com o gosto da saliva do outro. Ao se misturarem, as salivas adquirem um paladar inefável, comparável apenas ao néctar mitológico. Um mistério enzimático, como outros do nosso corpo.
Fico triste por ter feito Negrinha sofrer. Mas sou um corcunda. Adeus, Negrinha, tua saliva era deleitável e os teus olhos verdes possuíam uma beleza luminosa.
Agnes demora uma semana para responder a minha carta.
O bilhete dela: Preciso do meu cachorro lulu, mas não preciso da minha mãe, talvez do talão de cheques dela. Vou dar uma passada aí.
Quando Agnes chega, já estou preparado para recebê‑la. Como é que um corcunda se prepara para receber uma mulher linda que deve ser arduamente induzida a se entregar a ele? Fazendo previamente os seus planos, todos contingentes, como é da essência dos planos; permanecendo tranquilo, como, aliás, devemos ficar quando recebemos o cirurgião ou o bombeiro que vai consertar a descarga do banheiro; usando roupas largas e projetando o peito para a frente; permanecendo alerta, para que o nosso rosto se mostre sempre bondoso e o nosso olhar permanentemente doce. Um corcunda distraído, mesmo não sendo quasimodesco e tendo um rosto bonito, como é o meu caso, exibe sempre um semblante sinistro.
Agnes entra e observa a sala com um arguto olhar feminino. Moro aqui há um ano apenas, mudo de casa constantemente, e a minha sala de estar, apesar de elegantemente mobiliada, tem algo vagamente truncado em seu aspecto, como se nela faltassem luminárias, móveis sem serventia e outros ornatos inúteis que resultam das ocupações prolongadas dos espaços domésticos. As estantes de madeira nobre — que abrigam meus livros, cds e dvds de cinema, música, ópera e artes plásticas —, que sempre me acompanham nas mudanças, são pré‑moldadas e fáceis de desarmar.
Agnes para na frente das estantes que ocupam as paredes da sala e pergunta, sem se virar para mim:
Este apartamento é seu?
É alugado.
Que livros são aqueles mencionados no seu bilhete?
Você saberá, oportunamente. É um programa sem tempo determinado de duração. Diariamente você lerá um poema. Os poetas nunca serão repetidos. Você terá o dia inteiro para ler o poema. À noite você vem aqui em casa, jantamos e você me falará sobre a poesia escolhida. Ou do que você quiser, se não sentir vontade de falar do poema. Tenho a melhor cozinheira da cidade. Quer beber alguma coisa?
Ela, que até então se mantinha de costas para mim, virou‑se subitamente, exclamando:
Não sei o que estou fazendo aqui. Acho que fiquei maluca. Vou virar estudante? É isso?
Você é uma mulher bonita, mas sente um vazio dentro de você, não sente?
Tchau.
Mais de vinte operações dolorosas para corrigir uma corcunda que não saiu do lugar. Captações constantes de expressões furtivas de desprezo, chacotas ostensivas — ei, corcundinha, posso passar a mão nas suas costas para dar sorte? —, reflexos diários e imutáveis de nudez repugnante no espelho em que me contemplo, para não falar do que leio no olhar das mulheres, antes de aprender a esperar o momento certo para ler o olhar das mulheres, se tudo isso não acabou comigo, que efeito pode ter um tchau dito de esguelha seguido de uma retirada desdenhosa? Nenhum.
Para selecionar o que Agnes deve ler, decido, por comodismo, usar os livros que tenho na minha estante. Penso em começar com um poeta clássico fescenino, mas é cedo para lhe apresentar poemas que dizem questo è pure un bel cazo lungo e grosso ou então fottimi e fá de me ciò che tu vuoi, o in potta o in cul, ch’io me ne curo poco, ela poderia ficar assustada, este poeta obsceno é para ser usado numa fase em que a mulher já foi conquistada. Esqueci de dizer que escolho poetas já mortos, não obstante existam poetas vivos muito melhores do que certos poetas consagrados que já bateram as botas, mas essa minha decisão é ditada pela conveniência, os melhores mortos tiveram oportunidade de encontrar o caminho das minhas estantes, e não posso dizer o mesmo dos vivos.
Envio para Agnes um poema que fala que a arte de perder não é difícil de aprender. Sei que isso irá provocar uma reação. Os preguiçosos vivem perdendo coisas, e não falo apenas de viagens.
Chove no primeiro dia do programa. Assim que entra na minha casa Agnes pergunta:
Como é que você sabia que, para mim, perder as coisas é sempre um desastre, apesar de todas as racionalizações que faço?
Da mesma maneira que eu sabia que você tem um pé maior do que o outro. Vamos falar mais sobre o poema? Podemos jantar depois.
Amanhã. Outra coisa, o pé da Vênus de Botticelli é muito feio, o meu é mais bonito. Tchau.
O corcunda sabe como se deita. Nós nos deitamos de lado, mas acordamos no meio da noite estendidos em decúbito dorsal, com dor nas costas. Deitar de barriga para baixo exige que uma das pernas seja dobrada e o braço oposto enfiado sob o travesseiro. Nós, corcundas, acordamos várias vezes no meio da noite, procurando uma posição cômoda, ou menos desconfortável, atormentados por pensamentos soturnos que nos atrapalham o sono. Um corcunda não esquece, pensa sempre na sua desgraça, as pessoas são o que são porque um dia fizeram uma escolha, se tivessem feito outra o seu destino seria diferente, mas um corcunda de nascença não fez nenhuma escolha, não interferiu na sua sorte, não lançou os dados. Essa constatação intermitente nos tira o sono, nos força a sair da cama. Além disso, gostamos de ficar de pé.
Quando Agnes chega, no dia seguinte, a cozinheira já está providenciando o jantar. Um sujeito com as vértebras no lugar pode levar a mulher que quer conquistar para comer um cachorro‑quente no botequim. Eu não posso me dar a esse luxo.
A poeta… É poeta ou poetisa?
O dicionário diz poetisa. Mas pode chamar todos de poetas, homens e mulheres.
A poeta diz que ao conversar com o homem que amava percebeu que ele escondia um tremor, o tremor do seu sofrimento mortal. Eu senti isso quando conversava com você.
Interessante, eu disse.
Você acha... chato ser corcunda?
Já me acostumei. Além disso, vi sem aflições todos os corcundas de Notre Dame no cinema, conheço todos os Ricardos iii — você sabia que o verdadeiro Ricardo iii não era corcunda, como se pode deduzir da sua armadura que ficou preservada até nossos dias? —, sei de cor o poema do Dylan Thomas sobre um corcunda no parque. Contemplo o Corcovado da minha janela, toda noite.
Agnes me imita:
Interessante.
Peço a ela que leia para mim o novo poema que escolheu. Ela folheia o livro, lê mal, a cara enfiada no livro. Não se pode ler de maneira decente enfiando a cara no texto. E ler um poema é ainda mais difícil, os próprios poetas não sabem fazer isso.
Fale do poema.
A mulher lamenta a morte do homem que amava… O seu destino era celebrar aquele homem, a força, o brilho da imaginação dele, mas a mulher diz que perdeu tudo, esqueceu tudo.
Você sentiu alguma coisa?
Uma certa tristeza. Esse poema me incomodou muito.
Fale mais, eu peço.
Agnes fala, eu ouço; fala, eu ouço. Apenas intervenho para provocá‑la a falar mais. Como sei ouvir, isso é muito fácil. Fazê‑las falar e ouvi‑las é a minha tática.
Acho que em russo deve ser mais atormentador ainda, diz ela.
Esse é o problema da tradução poética, respondo.
O leitor ou sabe todas as línguas do mundo, diz Agnes, ou tem que se habituar com isto: os poemas ficarem menos tristes ou menos alegres ou menos bonitos ou menos significativos, ou menos et cetera quando traduzidos. Menos sempre.
Um poeta americano disse que poesia é o que se perde na tradução.
Quem foi?
Você vai ter que descobrir. Que tal jantarmos?
Não vou descrever as iguarias do jantar, os vinhos de nobre origem que bebemos, as especificações dos copos de cristal que usamos, mas posso dizer que a mesa do melhor gourmet da cidade não é melhor do que a minha. Meu pai era atilado em matéria de negócios e quando morreu — minha mãe morreu antes, creio que não suportou a minha desgraça, a desgraça dela — me deixou em situação confortável. Não sou rico, mas posso mudar, quando necessário, de uma bela residência para outra ainda melhor, tenho uma boa cozinheira e tempo ocioso para realizar meus planos.
Chamo um táxi. Acompanho‑a até a sua casa, apesar dos protestos de que poderia ir sozinha. Volto muito cansado.
Saio muito cedo da cama, em dúvida sobre o outro poeta que indicarei. Escolher os livros faz com que eu me sinta ainda mais safado, como um desses scholars sabichões que ganham a vida criando cânones, ou melhor, catálogos de autores importantes. Na verdade, como já disse, só quero usar os autores que tenho nas minhas estantes, e mesmo as estantes de um corcunda não têm, necessariamente, os melhores autores.
Peço a Agnes que leia o poema em que o autor descreve alegoricamente uma cunilíngua.
Leia, por favor, este poema para mim.
Ela lê. Seu francês é perfeito.
Fale sobre o poema.
O poeta, depois de dizer que a sua amada está nua como uma escrava mourisca, contempla as coxas, os quadris da mulher, o seu peito e a sua barriga, ces grappes de ma vigne, observa embevecido a cintura estreita que acentua a pélvis feminina, mas o que o deixa extasiado e suspiroso é o vermelho soberbo do rosto da mulher.
Foi assim que você entendeu? O poeta vê a pélvis e extasia‑se com o ruge do rosto? Lembre‑se, ele está fitando a porção inferior do tronco da mulher, a parte rouge superbe que chama a sua atenção só pode ser a vagina. Apenas ele não era fescenino o bastante para desprezar as metáforas.
Pode ser. Qual é o menu de hoje?
Foi você quem disse que quer entender.
Qual é o menu de hoje?
Grenouille.
Adoro.
Já se passaram vários dias desde o nosso primeiro encontro. Mantenho o controle, a paciência é uma das maiores virtudes, e isso vale também para aqueles que não são corcundas. Hoje, por exemplo, quando Agnes, ao sentar‑se na minha frente, mostra os joelhos, sinto desejo de beijá‑los, mas nem sequer olho‑os por muito tempo.
Agnes pega o livro.
Isto aqui: transforma‑se o amador na coisa amada, por virtude de muito imaginar… que mais deseja o corpo de alcançar? Que diabo o poeta quer dizer com isso?
Agnes, você leu o poema de má vontade. Foi você que escolheu esse poema. Havia outros mais fáceis.
Podemos dizer que é um soneto solipso?
Pelo prazer da aliteração?
Também. Ou o chamaríamos de soneto ascético? Ou soneto neoplatônico? Você vê, já estou parecendo o meu próprio professor.
Pode‑se ter uma filosofia sem conhecer o filósofo que a concebeu? pergunto.
O rosto dela fica imóvel, ela costuma ficar assim, sem mexer os olhos, muito menos os lábios, essas mímicas de quem quer demonstrar que está meditando. É como se tivesse ficado surda. Mas logo em seguida recomeça a falar com entusiasmo. E eu ouço. Saber ouvir é uma arte, e gostar de ouvir faz parte dela. Quem finge gostar de ouvir é logo descoberto em sua impostura.
Não toco nela, nesse dia, nem nos próximos dias.
Há mulheres de pele branca baça, outras de uma brancura quase azinhavrada, outras descoradas como gesso ou farinha de rosca, mas a pele branca de Agnes tem uma radiância esplêndida, dá‑me vontade de mordê‑la, cravar os dentes nos seus braços, suas pernas, seu rosto, ela tem um rosto para ser mordido, mas contenho‑me. Dou‑lhe, para ler, outro poema erótico. Confesso que corro um risco calculado. Como ela reagirá ao ler — a língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta, a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas variações de leves ritmos, e lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda? Agnes mudou de assunto quando tentei fazer uma exegese (é isso que ela quer, não é? Entender?) erótica do poema da cunilíngua, lido por ela dois dias antes. Como se comportaria agora, ao ler outro poema com o mesmo tópico e ainda mais ousado?
Pensei que a poesia não mostrasse isso, que felação e cunilíngua fossem clichês usados apenas nos filmes, diz Agnes, após ler o poema. Não sei se gostei. Lambe lambilonga lambilenta é uma aliteração engraçada. Mas licorina gruta cabeluda é horrível. O próximo vai ser assim?
Não percebo as verdadeiras implicações contidas no que ela me diz. Desagrado, decepção? Mera curiosidade? Uma abertura? É melhor não me aprofundar.
Estamos nesse jogo há muitos dias.
Lemos um poema sobre um sujeito que pergunta se ousará comer um pêssego.
Comer pêssegos?
Faço o jogo que ela quer:
Digamos que seja sobre a velhice.
E velhos não têm coragem de comer pêssegos?
Creio que é porque velhos usam dentadura.
Pensei que poemas sempre falassem de coisas belas ou transcendentais.
A poesia cria a transcendência.
Odeio quando você se exibe.
Não estou me exibindo. As próteses não são apenas a coisa que representam. Mas umas são mais significativas do que outras. Implantes de pênis mais do que dentaduras.
Pernas mecânicas mais do que unhas postiças?
Marca‑passos cardíacos mais do que artefatos auditivos.
Seios de silicone mais do que perucas?
Isso. Mas sempre transcendendo a coisa e o sujeito, algo fora dele.
Esse implante é muito usado? O do…
Do pênis? Coloque‑se na posição de um homem que faz esse implante. Veja a singeleza poética desse metafísico gesto de revolta contra o veneno do tempo, contra a solidão, a anedonia, a tristeza.
Posso fazer uma pergunta impertinente?
Pode.
Você usa, ou melhor, usaria essa prótese?
Sou um corcunda verdadeiro. Um corcunda não precisa disso.
Poderia dizer a ela que um corcunda de nascença, como eu, ou sublima os seus desejos para sempre — nesse caso, para que o implante? — ou então, na idade adulta, como eu, que até os vinte e oito anos nunca tive uma relação sexual, passa a ser dominado por uma lubricidade paroxística que faz o seu pau ficar duro ao menor dos estímulos. Um corcunda ou fica broxa ou arde numa fogueira de lascívia que não arrefece um instante sequer, como o calor do inferno. Mas isso ela comprovará oportunamente.
Não há nenhuma dentadura no poema, diz Agnes, nem implante de qualquer natureza.
Os poetas nunca mostram tudo claramente. Mas a dentadura está lá, para quem olhar bem.
A velhice está lá, e o medo da morte.
E o que é a velhice num homem?, pergunto.
Concordo: é dentadura, calvície, a certeza de que as sereias não cantam mais para ele. Sim, e também o medo de agir. Ousarei?, o poeta pergunta o tempo inteiro. Ele odeia os horrendos sintomas da velhice, mas não ousa se matar. Ousarei comer um pêssego? significa, terei coragem de acabar com essa merda que é a minha vida? O pêssego é uma metáfora da morte. Mas aceito que exista também uma dentadura no meio. Estou aprendendo a entender poesia?
Sim. O poema pode ser entendido como você quiser, o que já é um avanço, e outras pessoas poderão, ou não, entendê‑lo da mesma maneira que você. Mas isso não tem a menor importância. O que importa é que o leitor deve sentir o poema e o que alguém sente ao ler um poema é exclusivo, não é igual ao sentimento de nenhum outro leitor. O que necessita ser entendido é o conto, é o romance, esses gêneros literários menores, cheios de simbolismos óbvios.
Eu acho que você fala demais, ela diz, bem‑humorada.
Caveat: se uma mulher não tiver um mínimo de humor e inteligência eu não consigo fodê‑la. Como poderia conversar com ela? Isso é péssimo para um corcunda lascivo que enfrenta uma verdadeira pedreira para conquistar mulheres, cuja primeira impressão ao vê‑lo poderia ser a mesma que teriam ao ver um basilisco, se esse réptil caolho de bafo mortal existisse. Já me imaginaram investindo, cego pelo desejo, dias e dias numa conquista para depois, no meio da empreitada, constatar que estou lidando com uma estúpida, que me fará broxar na hora H? Quando um corcunda broxa uma vez, broxa para o resto da vida, como se inoculado por uma bactéria multirresistente. Dirão, se Agnes fosse inteligente, ela me acharia prolixo e exibicionista. Mas na verdade eu apenas a provocava para que ela falasse. Ela estava impressionada consigo, acreditava que estava aprendendo não apenas a ver, mas a entender que a pessoa pode ser míope, porém não pode ficar com os olhos fechados.
Outra coisa: assim como para o poeta escrever é escolher — criar opções e escolher —, também eu tinha que criar opções e escolher.
Estou com o meu membro rígido. A tesura e o tamanho do meu pênis dão‑me uma confiança, uma coragem muito grande, maior mesmo do que a minha astúcia cerebrina. Sinto vontade de colocar a mão dela no meu pau, mas ainda não chegou o momento para isso. A alternativa ainda não foi criada.
Não sei se já disse que o nome da minha cozinheira é Maria do Céu. Ela merece esse nome, e esta noite nos brinda com uma magnífica refeição.
Depois do jantar ficamos conversando até de madrugada. Pergunto algumas vezes, não é tarde para você? E ela responde que está sem sono e sem vontade de ir para casa. Tomamos vinho, mas tenho o cuidado de evitar que ela se embriague. A lucidez, a minha e a dela, é essencial ao meu plano.
Conto anedotas sem graça, que a fazem rir, exatamente porque não têm a menor graça. Pela primeira vez ela fala de assuntos pessoais, os menos complexos, como a rabugice da sua mãe. Há mulheres que mesmo tendo saído da adolescência continuam mantendo o ressentimento contra a mãe. Ouço tudo, atento. Agnes fala também sobre o seu antigo namorado, que era uma boa pessoa mas não conversava com ela. Certa ocasião, foram jantar fora e ela decidiu que ficaria calada a noite inteira. No restaurante o namorado consultou o menu, sugeriu os pratos, fez os pedidos e, depois de servidos, perguntou a Agnes se a comida dela estava gostosa. Não disse mais nada, e nem sequer percebeu o silêncio de Agnes. Talvez tivesse reparado se ela tivesse recusado a comida, mas ela estava com fome. Chegando em casa foram para a cama e fizeram amor em silêncio. Depois o namorado disse boa noite, minha querida, virou‑se para o lado e dormiu.
Ouvi tudo atento, fazendo comentários neutros, mas adequados, que ela interpretaria como um evidente interesse da minha parte pelo que ela dizia e sentia.
Escolho outro poeta de língua inglesa. Não tenho predileção pela língua inglesa, mas cultivo o inglês pela mesma razão que Descartes sabia latim. Agnes chega com uma cesta de tangerinas.
Nunca tem tangerina na sua casa.
Não é época de tangerina.
Mas eu achei. Escolhi este poema.
E então?
O poeta diz que conhece a noite, andou e anda na chuva, além das luzes da cidade, sem olhar para as pessoas, sem vontade de dar explicações, imagina os ruídos das casas distantes; o tempo que o relógio marca não está errado nem certo. Sabe que estou gostando disto?
Por quê?
Eu queria entender o que os poetas dizem, e aprendi com você que isso é secundário, diz Agnes. Todo texto literário tem a capacidade de gerar diferentes leituras, mas, além dessa riqueza de significados, a poesia tem a vantagem de ser misteriosa mesmo quando diz que dois e dois são quatro.
Você tem razão. E, principalmente, a poesia nunca é totalmente consumida. Por mais que você devore um poema, o sentimento que ele provoca jamais se esgota.
Ai que vida complexa, diz Agnes, fingindo suspirar.
Vai ver é isso, eu digo, tocando de leve no seu braço. Ela se afasta do contato com naturalidade, sem drama.
Isso o quê?
A vida é complexa.
É isso o que os poetas dizem?
Não sei. Vamos jantar.
Será que fiz besteira, tocando‑a? penso, enquanto comemos as delícias gastronômicas preparadas por dona Maria do Céu.
Estou há muitos dias nesta empreitada. Sinto que Agnes começa a ficar mais vulnerável. Mas, como diz a Bíblia, há um tempo certo para tudo, e ainda não está na hora de colher.
Existe uma poesia feminina?, pergunta Agnes. Se alguém não soubesse o nome do autor descobriria que este verso — o sentimento mais profundo sempre se mostra em silêncio; não em silêncio, mas em contenção — foi escrito por uma mulher? Esta é uma frase masculina ou feminina?
Foi uma mulher que a escreveu, mas poderia ter sido escrita por um homem.
Acabamos de jantar e estamos no meio da nossa conversa quando a campainha toca. Maria do Céu vai abrir a porta e logo volta, com ar compungido, seguida de Negrinha.
Não sabia que você tinha visita, diz Negrinha.
Eu disse que o senhor estava com uma pessoa, protesta Maria do Céu, que sabe que aquela aparição inesperada só pode causar problemas: ela testemunhou Negrinha esmurrar a minha corcunda quando lhe dei o bilhete azul.
Não ouvi, diz Negrinha, notando o livro sobre a mesa. Ah, poesia, vim atrapalhar uma conversinha sobre poesia? Esse demônio é cheio de truques.
Agnes se levanta da cadeira.
Está na hora de ir embora.
Você não me apresentou a sua amiga, diz Negrinha.
Em outra ocasião, diz Agnes. Tchau.
O tchau de Agnes é sempre um mau sinal. Vou até a porta com ela.
Espera um pouco que vou pegar o livro.
Ela recebe o livro e sai apressada, só tenho tempo de dar um beijo no seu rosto.
É sempre a mesma mágica, diz Negrinha ironicamente. O homem que sabe conversar sobre a beleza da música, da pintura, da poesia. E isso engana as tolas, não é? Funcionou comigo. Música pra cá, poesia pra lá, quando a párvoa abre o olho você já está enfiando o pau nela.
Negrinha, para com isso.
Você é um escroto. Aquela sirigaita foi embora antes que eu lhe dissesse que grandessíssimo filho da puta você é.
Negrinha...
Vim aqui com pena de você, achando que estava sozinho, mas não, encontro outra idiota sendo seduzida, a próxima vítima. Ela sabe que depois que for comida você vai dar um pontapé na bunda dela?
Quer tomar alguma coisa? Senta aqui. Quer um vinho?
Água.
Trago um copo com água para ela. Negrinha bebe um gole. Agora está mais calma.
Acho que vou aceitar aquele vinho.
Coloco o copo e a garrafa de bordeaux, o vinho que ela gosta, ao seu lado.
Quem é aquela mulher? É a tal Vênus, para quem você escrevia poemas de amor?
Já lhe disse que aquela Vênus era uma figura fictícia.
Você disse que estava apaixonado por outra. Por essa sirigaita, a clássica loura burra?
Ela é ruiva.
A mesma merda.
Negrinha esvazia e volta a encher o copo de vinho.
E como é que você podia se apaixonar por outra, se vivia me comendo? Por que você me abandonou? Você gostava de mim, você gosta de mim, quer ver?
Ela estende a mão, mas eu me afasto.
Está com medo, não é? Quero ver você me deixar pegar no seu pau.
Ela bebe outro copo de vinho, num só gole.
Negrinha, lembre‑se de Heráclito...
Heráclito é o caralho, você nunca leu livro algum de filosofia, leu esses folhetos para barbeiros e manicuras.
Eu vou ter que sair, Negrinha.
Não me chame de Negrinha, meu nome é Bárbara.
Tenho que sair.
Está com medo de ir para a cama comigo.
Tenho um compromisso importante.
Covarde.
Vou para o meu quarto e começo a trocar de roupa, rapidamente. Negrinha invade o quarto. Parece‑me um pouco embriagada. Enquanto me visto apressado, ela se desnuda com o mesmo açodamento. Terminamos praticamente ao mesmo tempo. Negrinha deita‑se, nua, na cama, mostrando para mim a ponta da sua língua úmida.
Vem aqui conversar comigo, ela pede.
Saio do quarto correndo e desço pelas escadas. Na rua pego o primeiro táxi que aparece.
Agnes desaparece por uns dois dias. Quando nos encontramos novamente, ela me parece calma, e diferente.
Gostei deste poema, diz Agnes.
Por quê?
Não sei. Talvez porque tenha três linhas.
E o que a escritora diz nestas três linhas?
Isso interessa?, Agnes pergunta. Ou o que importa é o que eu senti?
Sim, o que você sentiu.
A poeta diz que não gosta de poesia, mas que ao lê‑la, com total desprezo, descobre na poesia, afinal, um lugar para a verdade. Entendi alguma coisa, mas acho que ela quer dizer algo diferente. Fui tomada por um sentimento que não sei explicar. É assim que deve ser, não é?
É.
Quem era aquela mulher que veio aqui? Ela é muito bonita.
Dou um beijo, leve, no rosto de Agnes.
Você acha que eu posso namorar você?, ela pergunta.
Acho que pode.
Você tem um rosto bonito, mas é corcunda. Como posso ser sua namorada?
Depois de algum tempo você nem perceberá essa minha característica física.
O que dirão os outros?
Os outros não saberão, não desconfiarão, não imaginarão. Vamos morar em outro lugar. Diremos aos vizinhos que somos irmãos.
E quem era aquela mulher? Tenho de admitir que ela é linda.
Deve ser alguma maluca.
Estou falando sério.
É uma mulher que cismou comigo.
Eu não sou preguiçosa.
Dou outro beijo nela, agora na boca.
Isto é muito bom, ela diz.
Pego‑a pelo braço e a conduzo gentilmente para o quarto. Tiramos nossas roupas em silêncio.
Depois da entrega, ela suspira esgotada. Deitado ao seu lado, sinto em minha boca o gosto deleitável da sua saliva.
Promete que vai sempre conversar comigo, diz Agnes, me abraçando.
Vou morar com Agnes numa outra casa, em outro bairro.
A rua ensurdecedora uiva em volta de mim quando uma mulher toda de preto, cabelos negros compridos, passa, alta e esguia, realçando, em seus movimentos, as belas pernas alabastrinas. (A vida copia a poesia.) Eu a sigo até onde ela mora. Tenho que criar uma estratégia rebuscada para me aproximar dela e conseguir o que preciso, tarefa difícil, as mulheres, no primeiro contato, sentem repulsa por mim.
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