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Obituário de Deus

Faleceu na manhã de ontem, aos 91 anos, o pai da Arquitetura Genética, o cientista inglês Allan J. Winchmaster, mais conhecido como Deus. Winchmaster foi encontrado morto na poltrona de sua casa de campo, nos arredores de Bristol, na Inglaterra. A causa da morte ainda não foi explicada. Winchmaster sofria de câncer no esôfago, mas existe a suspeita de que tenha sido envenenado. Nas últimas décadas, o cientista conviveu com inúmeras ameaças de assassinato. Seu corpo foi cremado em uma cerimônia privada, que reuniu apenas familiares e alguns amigos próximos.
Formado em biociências, Winchmaster ficou famoso na comunidade científica internacional ao elaborar o conceito de arquitetura genética, que estaria para a engenharia genética assim como a arquitetura está para a engenharia civil. Ou seja: o arquiteto geneticista “desenha” novos seres vivos, enquanto o engenheiro geneticista precisa encontrar a sequência de genes e a expressão gênica ideais para gerar em laboratório aquele ser. A primeira criação de Winchmaster, batizada de “Pipe rat”, ou rato do cano, consistia em uma espécie de rato capaz de adentrar longos canos de complexos industriais e se alimentar de seus mais variados resíduos. Toda a pesquisa foi encomendada e financiada pela Petroleum United. Os ratos de cano tinham ventosas nos pés, o que lhes permitia escalar canos longuíssimos por dentro, assim como uma pele capaz de suportar altas temperaturas. Além disso, eram anaeróbicos: não precisavam de oxigênio para respirar. O sucesso da experiência levou Winchmaster a publicar um artigo na revista de divulgação científica Today Science, no qual empregou pela primeira vez o termo “arquitetura genética”.
O artigo causou polêmica. Líderes religiosos condenaram o conceito de arquitetura genética e acusaram Winchmaster de querer “brincar de Deus”. O cientista foi considerado persona non grata no Vaticano e em diversos países fundamentalistas islâmicos. Membros da Jihad Alkassum chegaram a dizer que Winchmaster seria assassinado se pusesse os pés em alguma nação de maioria muçulmana. Na época, o cientista ignorou as críticas e, em tom de deboche, até se inspirou nelas ao batizar de “God Land” seu escritório de arquitetura genética, o primeiro do gênero no mundo. Os amigos começaram a chamar Winchmaster de “Deus”. O apelido pegou. O próprio cientista, conhecido por ser um ateu fervoroso, gravou o nome Deus em seu cartão de visitas.
Brincadeiras à parte, Deus sempre teve plena consciência dos riscos inerentes à nova ciência que inventara. Por isso, poucos meses após o primeiro artigo sobre os ratos de cano, ele publicou outro, no qual listava o que chamou de “Princípios básicos para uma arquitetura genética responsável”. Era, na prática, uma série de regras para que as futuras criações dos arquitetos geneticistas não gerassem um desequilíbrio ecológico mundial ou qualquer outra catástrofe. O primeiro é o princípio da infertilidade ou da não multiplicação: todo ser desenhado por arquitetura genética deve ser estéril, para evitar que se reproduza e saia de controle. O segundo princípio é o da inteligência controlada: é proibido criar seres que tenham inteligência próxima à do Homo sapiens. O terceiro e último princípio é o do eterno cativeiro: todo ser criado por arquitetura genética deve estar sob permanente observação de seus donos. Foi por sugestão de Deus que tais seres passaram a vir com chips de localização implantados. Os princípios criados por Deus serviram de base para o Tratado Internacional de Arquitetura Genética (TIAG), assinado por 115 países em outubro de 2066.
Depois de Deus, muitos outros cientistas se tornaram arquitetos geneticistas e abriram escritórios próprios, mas nenhum conseguiu alcançar o mesmo sucesso e prestígio de God Land. O escritório de Deus criou seres para os mais diversos fins. No auge de seu sucesso, na década de 60, chegou a ter 150 arquitetos geneticistas contratados trabalhando simultaneamente. Os Moglows foram a mais famosa dentre as criações de God Land. Os pequenos ursinhos foram a febre dos Natais de 65 e 66, tendo sido os primeiros seres de arquitetura genética produzidos em escala industrial. Mais de dez milhões de unidades foram vendidas no mundo inteiro, um recorde que permanece imbatível.
Nas últimas décadas, porém, os inúmeros incidentes envolvendo experiências de arquitetura genética trouxeram muita infelicidade a Deus. Para amigos próximos, o desgosto de ver a má utilização de sua ciência pode ter contribuído para o surgimento do câncer. Logo que teve notícia das primeiras quebras do TIAG e de experiências que simplesmente saíram do controle, Deus iniciou uma campanha mundial pela ética e por mais controle na arquitetura genética. Mas nem assim conseguiu evitar que outros desastres acontecessem. Um dos mais conhecidos foi o dos sapos Lemgruber, que, por um erro de engenharia, foram produzidos com capacidade de fertilização, gerando um terrível desequilíbrio ecológico em pântanos dos Estados Unidos no verão de 68. Vale lembrar também o terrível incidente com as Garfosas, que provocou a morte de dezenas de milhares de pessoas na África setentrional após a grande seca de 69. Foi por sugestão de Deus que, durante o 5o Congresso Internacional de Arquitetura Genética, em 2071, os governos de vários países criaram comitês nacionais formados por cientistas especializados e treinados para atuar em caso de crises ecológicas provocadas por arquitetura genética.
Nada causou maior irritação a Deus do que o uso de sua ciência para fins militares. Ele sempre se posicionou contra a produção dos OKWs (Ortophedical Kamikaze Warriors).
Alegando quebra do princípio da inteligência controlada, Deus conseguiu impedir que os tenebrosos soldados fossem fabricados nos países signatários do TIAG, mas não convenceu as demais nações. Usados durante a guerra dos oito dias, os OKWs massacraram milhões de pessoas no sudeste asiático. Em recente artigo, Deus escreveu sobre o risco dos OKWs se voltarem contra os próprios donos, já que possuem um QI acima do limite determinado pelo TIAG.
Curiosamente, Deus se tornou, nos últimos anos, o maior crítico de sua própria obra. Foi ele quem denunciou pela primeira vez a existência da guerra fria genética. As acusações de que Estados Unidos, Alemanha, Rússia, Índia e China manteriam laboratórios secretos com projetos de terríveis seres para fins bélicos nunca foram comprovadas, mas alimentaram inúmeros boatos nos últimos anos.
Em uma bombástica entrevista à revista Today Science quatro anos atrás, Deus reconheceu publicamente o erro de ter criado a arquitetura genética, ainda que cercada de princípios éticos que poderiam mantê-la sob controle. “Foi ingenuidade da minha parte acreditar que o ser humano seria capaz de ater-se a algum limite. Controlar as criações é fácil. Difícil é controlar o criador”, lamentou. Deus passou a defender que a arquitetura genética não deveria ser uma ciência de livre uso pelo mercado, mas controlada pelos governos, sendo usada em projetos sem fins lucrativos e com objetivos pacíficos. Para dar o exemplo, Deus fechou God Land e conclamou outros famosos arquitetos geneticistas a fazerem o mesmo com seus escritórios.
A mudança abrupta de posicionamento rendeu a Deus mais alguns inimigos. Como se não bastassem as ameaças de morte que recebera com frequência de religiosos radicais nas últimas décadas, ele passou a ser perseguido também pela indústria de laboratórios de engenharia genética, setor que no passado ele próprio fomentara. O serviço secreto
britânico chegou a desbaratar um plano para assassiná-lo que teria sido encomendado por alguns dos maiores laboratórios da Europa.
Para fugir de seus inimigos, Deus passou a viver como um nômade, mudando-se constantemente de endereço. Falava cada vez menos com a imprensa. Aparecia ocasionalmente na mídia, sempre com um discurso mais e mais rancoroso contra a arquitetura genética. A rotina de mudanças, contudo, perdeu força em razão do câncer no esôfago, e Deus passou a ficar mais tempo em sua casa de campo, em Bristol, até ser encontrado morto ontem.
Deus deixou três filhos: Lucy, Yolanda e um temporão, Thor, nascido quando ele tinha 75 anos e já vivia o período de constantes trocas de endereço para escapar de atentados. Há rumores de que Thor seria na verdade uma criação de arquitetura genética. Dizem que o adolescente, hoje com 16 anos, tem uma inteligência acima da média e uma beleza que em nada lembra o próprio pai. Deus sempre negou que Thor fosse uma experiência genética, embora tenha se recusado a realizar testes de DNA que comprovassem a paternidade. Há boatos na comunidade científica de que Thor seria o primeiro espécime de uma nova raça de seres humanos, com genes que potencializam a inteligência, a solidariedade e a bondade, ao mesmo tempo em que reduzem características como ambição e egoísmo. Seria a última e derradeira criação de Deus em arquitetura genética. Uma fonte próxima à família Winchmaster diz que antes de morrer Deus teria instruído Thor a encomendar a produção clandestina desses novos seres humanos, rompendo todos os princípios do TIAG. O último desejo de Deus seria o de mudar a natureza do homem. E, assim, melhorar a vida no planeta. O filho de Deus foi procurado por este jornal, mas preferiu não conceder entrevista.