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Cronicas

Plano

Descobrir qual é a atividade profissional mais bem remunerada. Fazer cursinho. Prestar vestibular para a área. Ser o primeiro da classe. Arrumar um emprego. Ralar, sem pensar em outra coisa, até juntar 20 milhões de dólares. Pedir demissão.

Comprar um sítio em Araraquara. Construir um galpão subterrâneo. Adquirir as mais modernas impressoras industriais. Contratar excelentes artistas e produtores gráficos. Instalá-los no bunker.

Descobrir quais são os dez países em que mais se estuda e se monta peças de Shakespeare. Contratar quadrilhas especializadas em roubo nos dez países. Surrupiar das bibliotecas públicas e privadas, lenta e discretamente, o maior número possível de edições de Hamlet. Mandá-las para Araraquara. Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, do couro da capa ao amarelo das páginas, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!"*. Devolver as edições adulteradas às bibliotecas. Queimar as originais.

Encomendar anônima e paulatinamente, nos sebos destes mesmos países, todas as edições de Hamlet que se puder encontrar. Mandá-las para Araraquara. Produzir versões fac-símile destes livros, idênticas em tudo às originais, dos furos das traças às manchas de café, a não ser por um detalhe: a inclusão de uma frase no final do segundo ato, uma ameaça do príncipe da Dinamarca a Cláudio, assassino de seu pai: "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!". Doar as obras adulteradas aos mesmos sebos em que foram encomendados. Queimar as edições originais.

Pagar pelo silêncio das quadrilhas e dos artistas gráficos. Se preciso for, matar os artistas gráficos e, depois, exterminar as quadrilhas.

Contratar hackers para adulterarem as versões on-line de Hamlet e incluírem a frase "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego!", no final do segundo ato. Pagar pelo silêncio dos hackers. Se preciso for, matar os hackers.

Sequestrar o crítico literário Harold Bloom. Mandá-lo para Araraquara. Forçá-lo a inventar uma explicação qualquer para a omissão do trecho "Ai, se eu te pego, ai, ai, se eu te pego", na maioria das edições da peça. O erro de uma gráfica londrina, em 1756? A mão pesada de um editor marselhês, em 1809? Forçá-lo a escrever um ensaio sobre Hamlet e citar, numa nota de rodapé, a omissão do trecho. Mandar o ensaio para a Oxford Literary Review. Dinamitar o bunker -- com Harold Bloom dentro.

Esperar duas décadas.

Mandar fazer um smoking sob medida. Viajar para a Inglaterra. Contratar uma acompanhante eslava, loira, de olhos azuis e um metro e oitenta e dois.  Reservar um camarote para assistir Hamlet, no Royal Shakespeare Theatre, em Stratford-upon-Avon. Ir ao teatro com Nadia ou Mika ou Zora. Pedir uma garrafa de champanhe Cristal. Dar o último gole três segundos antes do final do segundo ato e ouvir o melhor ator da Royal Shakespeare Company recitar, para 1.500 homens de paletó e mulheres cobertas de brilhantes: "Oh, if I catch you, oh, oh, if I catch you!".

Voltar para Araraquara e passar o resto dos meus dias criando curiós.

* Refrão da música “Ai, se eu te pego”; lançada em 2011 pelo até então desconhecido cantor brasileiro Michel Teló, tornou-se um fenômeno mundial, com mais de 300 milhões de acessos no Youtube.

 

                           Diga trinta e três

Trinta e três. Quem diria. A adolescência foi na última quinta, ainda há resquícios dela na estante de CDs, no seu vocabulário, num canto do armário – uma camisa xadrez que não vê a luz do sol desde um show do Faith no More, em 1997 -, mas são resquícios. Vez ou outra você está no supermercado, comprando saco de lixo, queijo minas light e amaciante e vê uma turma de garotos e garotas carregando garrafas de Smirnoff Ice e pacotes de Doritos. Você olha para as franjas lambidas dos meninos, para os piercings das meninas e se dá conta, meio assustado, que aquele é um mundo distante. Sente alguma vergonha do seu carrinho.

Diga trinta e três: trinta e três. Diga: o que você fez? A essa altura da estrada, uma parada é inevitável. Você desce do carro, contempla a vista do mirante. Não é um olhar para trás, como devem fazer os velhos, ao fim da vida – ou devem evitar fazê-lo, dependendo -, mas um olhar em volta: isso aqui sou eu. Daqui pra frente, não vai mudar muito, vai? Já deu tempo de perceber que você não é um gênio da matemática, nem um fenômeno da ginástica olímpica.

Trinta e três anos. A idade de Cristo, alguém diz, e você logo pensa, repetindo um dos cacoetes de sua faixa etária: o que ele já tinha alcançado, com a minha idade? Bom, tinha transformado água em vinho, multiplicado peixes e pães, andado sobre as águas, levantado defuntos e conquistado uma multidão de fiéis em toda Judéia, Galiléia, Samaria, Efraim e arredores. E você, que não tem nem casa própria? Bom, também, naquele tempo era mais fácil – você tenta se consolar --, não tinha tanta concorrência e, oras, o cara era filho de Deus, o que não só abre portas, abre até o mar vermelho! Mas você se compara, mesmo assim: Jesus deve ter andado sobre as águas com o que? Dezessete? Orson Welles fez Cidadão Kane com vinte e cinco. Rimbaud escreveu toda a obra até os dezenove! E você tão feliz por ter conseguido mais quinze seguidores no Twitter.

(O lance do Mar Vermelho… Foi com Jesus ou com Moisés? Céus, trinta e três anos e você não sabe uma coisa dessas? Será que um dia vai saber? Quando tem treze, ou vinte e três, acha que uma hora vai aprender tudo o que não sabe, basta ficar parado que as coisas naturalmente virão e entrarão na sua cabeça. Agora você percebe que talvez passe a vida ignorando certos assuntos. Mar Vermelho. As regras do gamão. Francês.)

Pense: um homem. Pense: uma mulher. Adultos, no sentido mais abstrato, como um casal num livro de inglês ou num vídeo de normas de segurança do Detran. Espécimes maduros do homo sapiens sapiens: eles devem ter a sua idade. Talvez tenham filhos. Você tem filhos, ou ainda não? Repare no “ainda não”, pois de todas as coisas que você não conquistou até agora, há que saber discernir entre as que podem vir acompanhadas por um “ainda não” e aquelas das quais é melhor desistir. Andar sobre as águas, gênio da matemática, fenômeno da ginástica olímpica: não é pra todo mundo. E aos trinta e três anos, meu chapa, é a hora de admitir: você é todo mundo. Sei que é difícil. Viu filmes da Sessão da Tarde demais, propagandas da Nike demais, foi mimado demais para admitir que Deus não passou mais tempo moldando a sua fôrma do que a do vizinho do 71. É a não compreensão desse banal infortúnio que faz com que haja em tantos rostos de sua idade um brilho opaco, um fungo que brota onde o sol não bate forte o suficiente: o ressentimento.

Acredite em mim: aos trinta e três anos, de Jesus pra baixo, todo mundo é ressentido. Não é que as pessoas levem vidas ruins, as aspirações é que são muito altas. A Sessão da Tarde, as propagandas da Nike… Seu emprego é bom, mas o salário é ruim. O salário é bom, mas o chefe é mala. O chefe é você, mas os prazos não te dão sossego. Sempre tem um cunhado que ganha mais, um vizinho cuja grama é mais verde, o próximo cuja mulher é mais fornida; Jesus, aos trinta e três, o Orson Welles, aos vinte e cinco – e o mau exemplo do Rimbaud eu nem comento.

Trinta e três anos. Você para. Desce do carro. Olha em volta. Você é o que queria ser quando crescesse? Não exatamente? Por que não? Será que dá pra mudar? Quanto dá pra mudar?

É preciso achar lugar no peito para as frustrações. É preciso lidar com o ressentimento e não deixar, em hipótese alguma, que ele se transforme em cinismo – se ressentimento é fungo, cinismo é ferrugem. Agora volte para o carro e siga em frente. Se tudo der certo, você não está nem na metade do caminho.

Diga, trinta e três: trinta e três. Quem diria.

 

                                                            Marretadas

Então Deus, cansado dos meus pecados, resolveu punir-me: enviou uma obra ao apartamento de cima. Faz alguns dias que salto da cama, apavorado, sob a orquestra de marretadas, crente que é a célula paulistana da Al Qaeda que acaba de entrar em atividade. Deus, ao que parece, mandou trocarem o piso. Inteirinho.

Os marreteiros do Senhor não brincam em serviço, foram treinados nos porões (ou sótãos) da ditadura – de todas as ditaduras. Derrubaram paredes em Sodoma e Gomorra, prestaram serviços a Torquemada, foram agentes duplos da CIA e da KGB. São hábeis em fazer a quebradeira da pior maneira possível: sem ritmo. Tum, tum, tum -- eles batem; você espera que a próxima nota seja tum, mas vem então uma pausa e… Tuntum. Tum-Tum, Tum-Tum – você vai se acostumando e… Tum-tá-tum!

O ser humano é capaz de suportar qualquer coisa, desde que faça sentido, e não há sentido mais antigo, impresso nas primeiras folhas do livro de nossa memória, do que o ritmo. Ritmo do coração de nossas mães, quando ainda boiávamos em líquido amniótico; ritmo que reaparece nas músicas de ninar, logo depois, insinuando que nem tudo está perdido; ritmo que buscamos nas rimas e na métrica da poesia; ritmo que adicionamos à mesma granola, toda manhã; ritmo que ouvimos por trás do boa noite do William Bonner; ritmo que nos alegra só por aparecer sete vezes no mesmo parágrafo, pois se tudo se repete, por que a vida também não?

Onde há sentido, há salvação. Mas com os marreteiros de Javé não há salvação. Não há padrão. É o código Morse do Demônio, o caos, pois se o ritmo nos sugere um sentido na vida e a repetição funciona como uma metonímia da ressurreição, a falta de ritmo semeia o desespero, a loucura, a morte.

Eu trabalho madrugada adentro, justamente por causa do silêncio. Às três da manhã, a Tim não me liga para oferecer planos, a Mastercard não me avisa que minha conta está “há 26 dias em aberto, senhor”, as pamonhas de Piracicaba dormem tranqüilas em alguma garagem da cidade, e eu posso pegar as palavras pelas mãos ou pelos cabelos, conforme a necessidade, para agrupá-las em diferentes caixinhas, sobre a minha mesa. Isso, até a semana passada, pois agora as marretas ressoam dentro e fora da minha cabeça, eu sou um zumbi e as palavras estão todas espalhadas pelo mundo.

É um mundo injusto. É proibido ouvir a “Cavalgada das Valquírias” ou “Sheena is a punk rocker” depois das dez da noite, mas nada impede que o vizinho de cima destrua seu apartamento a marretadas a partir das oito da manhã. Não há o que fazer. Só me resta sofrer nesse brejo da cruz, enquanto o coaxar dos martelos-sapo me castiga pelos 31 anos que vivi em pecado. Perdão, Senhor!

 

A gostosa

Sempre que entro num recinto público – pode ser padaria, farmácia, açougue ou velório – olho em volta, procurando a gostosa. Não o faço por desejo, carência, narcisismo ou outro simples reflexo de minha banal condição masculina: a gostosa é um acontecimento literário.

Ela pode ser loira ou morena, alta ou baixa, preta, branca, japonesa ou búlgara, não importa: a gostosa é um estado de espírito. Ou, se preferirem outra palavra, tão esgarçada por programas de esporte, revistas para adolescentes e propagandas de achocolatados: uma atitude.

Hoje fui ao cartório. Havia ali, sentada entre os motoboys e os aposentados, a esperar sua senha apitar no painel, uma mulher que parecia a Claudia Cardinale em Era uma vez no Oeste. Vestia-se com discrição. O cabelo, preso numa trança, deixava à mostra a nuca morena, contrastando com o branco do vestido florido. As pernas estavam cruzadas e um pezinho, suspenso no ar, marcava quase imperceptivelmente uma melodia que só ela ouvia.

Não era a gostosa. A gostosa não deixa dúvidas: chegou cinco minutos depois, de calça jeans desbotada agarrada à bunda, combinando com um top apertado que espremia os peitos e deixava entrever um soutien preto. Assim que entra, com seu rebolar, o cheiro do perfume e o movimento dos cabelos, ela emite a todos, como que por telepatia, a incontornável informação: atenção, a gostosa chegou.

Muda tudo. Cada um sabe exatamente qual o seu lugar social diante da gostosa. O aposentado de jaqueta bege a espia de soslaio e, quase triste, suspira. As moças do cartório franzem a sobrancelha, regozijando-se de suas virtudes feitas de crachás, cafés e conjuntinhos pretos. Um rapaz de óculos, meio nerd, examina o teto, examina o chão, as mãos lhe sobram. Todos arriscam um olhar em direção à gostosa, mas ela dá penas uma conferida panorâmica, mascando o chiclete – displicentemente, como quem macera corações – e retira a senha.

Então, do conjunto desconjuntado de homens, do meio dos aposentados e míopes, dos barrigudos e coxos, dos médios, dos graves e dos agudos, surge o Macho da Gostosa. Pode ser um motoboy bem apessoado, um playboy, um pequeno empresário novo-rico de correntinha de ouro. Não acontece nada. Eles apenas cruzam as vistas e, tacitamente, todos sabem: a gostosa é dele. Tristeza para alguns, alívio para outros. Depois a gostosa vai para um lado, ele pro outro, aos poucos se retiram os atores daquelas bem ensaiadas cenas, sobra apenas um perfume doce no ar e a voz da mocinha virtuosa chamando o próximo: cinquenta e quatro, cinco quatro!