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Señor Capitán!

O advogado a meu lado encolhe silenciosamente os ombros. Com o gesto parece dizer: Certas histórias não cabem em palavras. Ainda assim, faz um esforço. Para tornar sua narrativa mais aceitável, afrouxa o nó da gravata e passa a falar devagar, como se fatiasse suas frases e as servisse em tiras finas... É um homem de meia idade, sincero e cansado. Conversamos há algum tempo no bar do hotel. Balançando o copo de conhaque entre os dedos abertos, dispõe-se a contar um episódio vivido em tempos passados, quando ainda morava na República Dominicana, sua terra natal.

Naquela época iniciava carreira como criminalista. Visitava com frequência a prisão central de Santo Domingo, para entrevistar clientes e garimpar novas causas. Gostava do velho pavilhão colonial, de proporções generosas e tons amarelados, com seus seis andares que se debruçavam sobre um pátio interno e seus corredores tomados por um constante eco de ruídos e vozes. Havia de tudo nas celas lotadas, de criminosos a bêbados,  de líderes sindicais a proxenetas. Costumava sentar-se ao lado das grades e conversar com seus clientes por horas a fio, bloco e caneta no colo. Tinha alma de jornalista - esperava um dia escrever livros.                

Em uma dessas visitas, ouviu um grito de dor que parecia vir de uma cela vizinha. Passado algum tempo, a notícia correu: um detento acabara de ser morto por seus companheiros. Não chegava a ser um episódio inédito naquela prisão. Mas o crime havia sido brutal.

A vítima era capitão de um barco pesqueiro, dedicava-se ao tráfico de imigrantes na rota da Flórida. Na prisão tivera um surto de malária e, durante a noite, gritara: “Señor capitán! Señor capitán!” em tons que iam da súplica à mais forte indignação. Ao amanhecer, em um estertor de delírio, dera início a um longo monólogo. Depois de ouvi-lo com toda atenção e fazê-lo repetir suas frases por mais de uma vez, os presos tinham-se dividido em dois grupos. Um se colocara de costas nas grades, o outro cercara sua cama de sombras. O capitão tivera a língua arrancada e os olhos vazados. 

Se a violência do crime beirava o incomum, as razões para o gesto se mantinham obscuras. Mas como os presos guardassem silêncio, a imprensa logo se esquecera do caso. O advogado tampouco insistira: sabia que o assunto ainda viria à tona, devagarinho, como os destroços de uma embarcação perdida em naufrágio que, cedo ou tarde, batem na praia. Como, de fato, ocorreu.                      

Cabiam trinta viajantes no pesqueiro, acomodados ao ar livre sobre a coberta. Por vezes mais - se fossem crianças ou pessoas idosas. Era uma gente de origem modesta, em geral do interior. Alguns tinham parentes na Flórida, outros arrriscavam a sorte em uma viagem que desejavam sem volta. Com as luzes do porto ainda visíveis, uma sopa de peixe era servida a todos. As crianças, que em geral reclamavam do sabor forte e amargo, ganhavam fatias de bolo.            

Uma hora depois, já distantes da costa, a comida fazia efeito e um torpor se abatia sobre os viajantes. As luzes então se apagavam. Os homens quase não ofereciam resistência: um a um, eram jogados ao mar. Seguiam-se as mulheres. Em meio a soluços e apelos eram arrastadas, molemente, e atiradas nas ondas. Em contato com a água os corpos se debatiam por um instante, como bonecos que despertassem de um sonho - mas os gritos logo morriam na espuma. Espuma que, nas noites de lua, se tingia de vermelho - os tubarões atacavam. 

Por fim, vinham as crianças - os marinheiros as lançavam na escuridão de olhos fechados. Nesse ponto de sua narrativa o capitão mudara de tom e, como se advertisse aquela gente miúda contra um grave perigo, erguera no ar um dedo de avô feiticeiro: Niños! Ti-bu-ro-nes!  - exclamara já quase demente.

Pobre capitão... Na última viagem uma menina recusara a sopa e não tocara no bolo. Escondida na escuridão, as mãos nos ouvidos, um grito nos olhos, vira a família sendo jogada ao mar, o pai, a mãe, a irmã. Passado a agitação, contudo, fora descoberta em meio ao silêncio, colada no mastro. A tripulação se intimidara perante tamanho fragmento de horror - e hesitara, à espera de um gesto do chefe. “Perdoname niña...”, dissera ele então, inclinando-se sobre ela como se cumprisse um dever. E a menina, suspensa sobre as águas, resumira com um grito a indignação do universo: “Señor capitán!...”.

O advogado engole seu conhaque e eu minha vodca. Com um gesto da mão pára o garçom que se aproxima solícito. É preciso que fiquemos bem sós, ele e eu - o tempo das águas do Caribe baterem na Flórida e regressarem até nós com a brisa da noite. O tempo de cinco séculos de absurdo e miséria cintilarem um segundo e morrerem. Como morrem as estrelas.

Em seu momento final, o capitão pedira perdão. Não aos homens que já o cercavam com um hálito de vômito - e menos ainda aos deuses que o haviam esquecido. Pedira perdão à menina  que dançava em seus olhos, ocupando todo o espaço que lhe restava de vida. 

O advogado desistira de ser escritor. “Escrever sobre o quê?”, indagara. Desistira, creio até, de ser totalmente feliz. “Conte essa história”, pediu-me. E acrescentou, a mão em meu braço: “Mas não a seus filhos. E menos ainda aos meus”.