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Natanael

II

Quando Natanael chegou, a primeira pergunta que se fez foi: “estou no lugar certo?”. O taxista simplesmente não conseguia entender por que meu amigo queria descer naquele ponto da marginal. Agora Natanael se encontrava na margem de terra, localizada entre as várias faixas da rodovia e o declive de concreto que descia até o rio morto-vivo. Para evitar o mau cheiro, seguiu o conselho de Faustine e pôs a mão no bolso, retirando um lenço perfumado com essência de baunilha. “Ah”, Natanael inspirou, enquanto carros e helicópteros martelavam. A bandeira branca estava mais visível agora do que quando a viu dentro do táxi. Acoplada a uma boia, que flutuava nas águas, a sua ponta tocava o rio. Natanael fez uma careta: a baunilha tinha o efeito colateral de acentuar o buquê de ovos podres que emanava do rio. Não havia outro jeito a não ser cheirar o pano cada vez mais forte, olhos fixos em direção a uma imensa pilastra de concreto, uma das inúmeras a sustentar o viaduto próximo que, daquele ângulo, lhe pareceu uma paródia de algum animal extinto. Podemos dizer muita coisa do relacionamento entre Faustine e Natanael, mas pelo menos uma é certa: ela sempre o mantinha bem-informado. Através da leitura de uma matéria de jornal indicada por ela, ele chegou àquele lugar.

*

            - E como foi a abordagem prévia, Natanael? – Perguntei.

            - Consegui os contatos dele com amigos jornalistas, daí liguei, escrevi e-mails. Disse a vocês do meu projeto? Estou escrevendo um livro, mas algo que vai juntar muitos tipos de escrita, daí eu escolhi esse cara pra ser o centro de tudo. – Respondeu.

            - “De tudo”?

            - Sua ironia não afeta meus ossos, Faustine! Mas enfim, meu plano era... Mergulhar com ele.

            Nesse momento, todos soltaram exclamações de surpresa e Natanael não conseguia esconder seu contentamento.

            - E você fez isso? – Perguntei, enquanto enchia mais um cálice.

            - Claro, Lucas. Como nos velhos tempos.

            - Velhos tempos?!

            - Ora, Faustine, eu sou um mergulhador!

            Todos trocaram olhares entre si.

            - Pois saibam que já fiz cursos de mergulho, já viajei pra megulhar. Esse ano mesmo, antes de combinar tudo com ele, me preparei, meses antes, com um novo curso!

            - E quando o senhor fez esse curso, Natanael?

            O interrogado deu de ombros e respondeu a Faustine:

            - Este ano.

            - Exatamente quando?

            - É mesmo. – Falei. – Não lembro de você falar desta história, ou de qualquer curso de mergulho, Natanael!

            - Posso voltar?

            O restante do público também estava contrariado, mas conosco.

            - Eu só queria saber se esta é mais uma das suas, Natanael.

            - Das “minhas”, Faustine?

            - De qualquer forma, parece uma boa história. – Eu disse.

            - Para mim não é isso o que mais importa, Lucas! Fatos são fatos.

            - O que exatamente você está sugerindo?

            - Que há certos, como dizer... Voos de imaginação em suas histórias, Natanael.

            - Absurdo! – Ele gritou, mas com um meio sorriso.

III

             Acho que o olhar do nosso amigo observava os grandes espinhos metálicos do viaduto. Sabe quando vamos, teria, se bem recordo, exemplificado Natanael, para uma praia, ou para um lugar turístico qualquer, e sempre tem um artesão que vende objetos como, por exemplo, um Dom Quixote feito de peças antigas retiradas dos mais diversos aparatos mecânicos, ou um castelo construído apenas com espinhas de peixe? Essas coisas? Essa impressão criou uma segunda, a de que meu amigo se encontrava em uma espécie de museu ao ar livre, mas não um museu tradicional, que sempre é formado por espólios de guerra.

            No mais além, lá pra depois da margem oposta, Natanael enxergou um conjunto de arranha-céus, parte de alguma importante região financeira de São Paulo. Seus cumes ora eram pontudos, ora arredondados, e havia todo tipo de sutil diferença nos diâmetros, nas reentrâncias e nos recortes daquelas estruturas ossudas. Em comum, a predominância, revestindo os gigantes, de materiais refletores; um deles parecia ter sido recoberto por uma fina camada, se isto fosse possível e comprável, diretamente decalcada do céu; outro prédio atraía para si múltiplos feixes de luz que, acumulados, formavam, durante meio segundo, um coágulo; em seguida, o gigante os lançava pelo espaço. Ao redor de tudo, helicópteros, agitados como gafanhotos, zumbiam e balançavam as tranças.

            A baunilha insistia em arder. O rio corria lento e oleoso. Coloridos fios gordurosos escorregavam e refletiam cores do arco-íris. Apesar da meia vida, apesar do luto, apesar do espessor, parecia, Natanael nos garantiu, que a qualquer momento dali do fundo uma revelação aconteceria – o rio abriria as próprias entranhas e cuspiria de volta algum degredo.

            De fato, a água se agitou, engendrando círculos, que se sobrepunham uns sobre os outros e produziam centenas de bolhas; logo, uma presença emergiu da água maciça; e a presença era um corpo, o corpo de um homem, que nadou até se aproximar da boia. Agarrou-a e depois começou a subir, sem dificuldade, o declive, movendo-se em linha reta em direção a Natanael. O explorador, poderíamos chamá-lo deste modo, trajava uma roupa preta feita de algum material que lembrava a borracha. Seu rosto estava protegido por um capacete dourado, que nada revelava da face protegida; no lugar da boca, um construto-válvula arredondado; no lugar dos olhos, dois círculos de vidro que refletiam a luz do sol; no alto do capacete, uma lanterna ainda acesa. Na mão direita, segurava um objeto parecido com uma pistola. A mão livre, porém, fez uma saudação pacífica. Natanael não se moveu. Logo o mergulhador estava na sua frente e colocava no chão os tubos de oxigênio. Só depois disto retirou o capacete, que fez barulho ao ser removido. Por baixo da roupa havia um homem moreno, gordo, de cabelos curtos e acanhados. Após tirar as luvas, ele estendeu a mão na direção de Natanael e disse:

            - Batista. Você deve ser o escritor?

            - Mais ou menos. – E apertaram as mãos.

            Carros buzinavam e Natanael descobriu, para sua surpresa, que alguns buzinavam para os dois. Apontavam Batista. Acenavam e tiravam fotos. Em troca, ele esboçava um sorriso, balançava discretamente a cabeça, fazia um sinal de legal. Se percebia, porém, crianças, surgia até uma pose. E as pessoas nem precisavam sair dos seus carros para fotografar – o tráfego estava realmente encorpado.

            - Parece que você está famoso, não é?

            - Pois é. – Respondeu e abaixou o rosto. Logo em seguida o ergueu de novo. – Mas é meio por isso que você está aqui.

            - Sim, sim.

            - Gostou das respostas?

            - Sim! E agradeço por me receber no seu... Lugar de trabalho.

            Batista lançou um olhar na direção do rio.

            - Não mergulho só aqui, mas, bem, este é claro o lugar mais famoso.

            Mais buzinas.

            - E então, quando mergulhamos?

            Batista observava Natanael.

            - Este não é um lugar de amadores, rapaz. Simpatizo com teu jeito e muito obrigado pelo interesse, mas...

            - Eu tenho experiência.

            - Sim! Mas uma coisa é Caribe, Fernando de Noronha, outra bem diferente é isso tudo aqui.

 

            (Neste momento, Faustine me deu um cutucão e, baixinho, disse: “Caribe?!”)

 

            - Talvez fosse bom, Natanael, umas aulas antes. Te dou umas aulas teóricas e fazemos umas práticas na empresa.

            - Batista, não seria perder muito tempo?

            - É uma pena. Olhe, aqui... – Apontou o rio. – Se perde e se acha de tudo.

IV

            A se acreditar em Natanael, a grande lição das aulas teóricas, das duas ou três classes ministradas por Batista, era essa frase: “lá embaixo, o seu maior inimigo é o medo”. Teria havido também lições práticas, tais como mergulhos em tanques com água turva, por exemplo.

            Ficou claro: Batista queria ver Natanael nadando. Para nós, ele fez questão de enfatizar o quanto os seus colegas e o próprio Batista teriam se impressionado com sua “extraordinária” capacidade de se localizar na sala de aula, apesar da venda e dos algodões. Mas Natanael nos confessou ansiedade. “Era completamente seguro” – apenas um ou outro mergulhador se machucava e, em casos raros, precisava amputar algo -, “mas, mesmo assim, eu pensava a todo instante: o que tinha no rio?”.

*

           Na noite anterior ao mergulho, acordou com um pesadelo: eram duas da manhã. A garganta ardia. Natanael deu alguns soquinhos no ventilador – o vento morno aliviou seu rosto e agitou os cabelos ensopados. Sem se mexer, ouviu a chuva. Vai ser rio cheio, pensou, preocupado. Tentou se lembrar do pesadelo que o tinha acabado de acordar. Havia cavalos e uma lua? Enxugou a testa, enquanto cavava o sonho na memória. Nada. E não conseguiu dormir. Pegou um livro de poemas da sua estante improvisada, ligou a luz do abajour e o folheou.

            - Batista... Já encontraram algum bicho, algum animal, por aqui? Não lembro de você mencionar isso.

            Na beira do rio, os dois se aprontavam.

            - E então?

            - Uma dessa tamanho. – Batista disse, por fim, abrindo o máximo possível os braços. – Uma cobra imensa...

            - Uma cobra?!

            - Forte como um jacaré! E branca, albina mesmo. Achamos faz alguns meses. Desse tamanho!

            - E o que ela caçava aqui? Ou estava perdida?

            Batista soltou uma gargalhada. Tocando no ombro de Natanael, disse:

            - Que nada, rapaz. Aí embaixo, o que só tem é um tipo de peixe ruim, o único que não morre. E não morde. Já vi também umas capivaras, mas não aqui mesmo, nesse ponto.

            Lá, bem na casca da água, bolhas e espirais estouravam. O rosto de Batista ficou sério. Suas duas mãos agarraram os ombros franzinos de Natanael:

            - Pra um mergulhador, medo chama problemas. Quer dizer... Um pouquinho de medo faz bem. Medo de se machucar, ou medo mesmo da morte. Tem que se cuidar. Mas um medo maior, um medo assim mais de alguma coisa, um medo de expectativa, esse daí você joga fora, rapaz!

            Escrutinou a roupa de Natanael de cima a baixo, examinou algumas partes da vestimenta.

            - Parece tudo em ordem. – Comentou.

            - Estou pronto.

            Em resposta, Batista apontou na direção de novas bolhas, porém nada disse.

*

            Entraram na água aos poucos, pedindo licença, após quase escorregarem pelo declive que terminava no rio. Natanael tocava o solo com passadas tímidas; seu pé às vezes afundava. Os braços, primeiro próximos ao corpo, aos poucos se sentiram à vontade e se soltaram como se fossem fiapos de águas-vivas. O rio se tornava mais largo à medida que avançava. Logo não havia nada abaixo dos seus pés; durante um ou dois segundos, seu corpo foi vítima de alguma espécie de turbulência até finalmente se equilibrar. Batista, mais à frente, se virou em sua direção e fez um sinal de legal; em resposta, Natanael repetiu o gesto do mergulhador, que novamente deu as costas para meu amigo. A matéria escura apagava, centímetro após centímetro, Batista. Natanael olhou à sua volta: a luz dos prédios vazou direto por dentro de seu visor; sacudindo a cabeça, mãos protegendo o rosto, Natanael abaixou a vista: espinhos e os ossos de cimento e rajadas e a água estacionada. As mãos, soltas, soltas, tentavam se agarrar em algo sólido, abrindo-se e fechando-se freneticamente.

            - Calma, calma.      

Não havia mais ninguém em meio às águas. Após jogar o corpo para cima, Natanael afundou, sem deixar de fechar os olhos, apesar da viseira; julgou ouvir o próprio corpo que, à deriva, deslocava pesadas placas; as rajadas da luz ainda se contraíam por dentro. Ao abrir os olhos, Natanael nada enxergou. Uma treva tão pura. E isto me lembrou uma visão de quando ainda morava em Recife. Durante específicos meses do ano, a região da antiga alfândega, ali pela igreja da Madredeus, se torna uma curiosa atração turística. Embaixo de uma das pontes que conectam uma ilha do centro da cidade à outra, desde a década de 80 milhares de morcegos decidiram fazer morada. Assim, se tornou tradição na cidade que os seus habitantes ou os turistas se aglomerem na passarela de pedestre da ponte, ou às margens do rio Capibaribe, a fim de esperar o sol cair e os morcegos partirem. E enquanto o sol cai, formando uma corola dourada, da cor das cúpulas das igrejas, que irradia um certo azul meio esbranquiçado, um azul amarrado ao rosa, os morcegos despertam e começam a despencar do fundo da ponte, girando em círculos acima das águas do Capibaribe. Parecem pedaços de papel lançados ao ar por alguma turbina. Observando os morcegos, temos casais de mãos dadas, europeus sonolentos, flanelinhas, jovens boêmios, hippies tropicais, hipsters tropicais, yuppies tropicais, californianos, meninos de rua, advogados, talvez um juiz de direito ou outro, engenheiros, servidores públicos; muitos baterão palmas quando os morcegos se aglomerarem e começarem a explorar a atmosfera – milhares de asas batendo ao mesmo tempo e ecoando um barulho estridente de couro. Os morcegos usualmente se juntam uns aos outros em uma fila reproduzindo o traçado e a espessura das artérias; eles geralmente se dividem em duas espessas artérias que, bem acima das edificações do centro da cidade, se encontram e seguem num movimento que, ao longe, lembrará um longo estandarte cheio de fraturas, remendos e buracos; o estandarte, apesar de corroído, conserva um mínimo de estrutura.

Havia tudo isto no escuro visitado por Natanael. E agora meu amigo duvidava se realmente tinha aberto os olhos, ou se conseguiria abri-los. Por instinto, a mão direita se moveu em direção ao rosto: sentiu toda a parafernália de plástico e metal. Afundado, movimentos circulares em meio às trevas, Natanael piscou os olhos até confirmar com segurança que possuía pálpebras; uma força já o expulsava na direção da luz; seu corpo, porém, reagiu e conseguiu afundar ainda mais. E Batista? Nenhum sinal do homem. Tudo estava fechado e haveria a serpente albina, assim como haveria um quadro horrível, encontrado por Natanael em alguma esquina no caminho antes de chegar ali, a retratar uma serpente marinha enroscada, tal qual um parafuso, em águas cor de vinho; haveria os crocodilos, aqueles crocodilos monstruosos dos piores filmes do mundo e que assombram os esgotos; e Tiamat aberta, do pescoço às patas, apodrecendo; e os sanguessugas; e os jacarés cegos, branquíssimos, cujas presas adquiriram, com o passar do tempo, formatos e tamanhos excêntricos; e todos os Dagons, Mollochs, Azazeis, Baals. Mas nada chegou. Nenhuma ameaça. Nenhum movimento, nenhuma presença, nenhum outro. Há apenas um silêncio de mãos cheias.

Natanael se lembrou da lâmpada acoplada em seu capacete de mergulho. 

            - Deus! – Ele poderia ter dito.

            Encontrou todo tipo de objetos acumulados no rio, mas assim que a luz acendeu, não conseguiu reconhecer nada; balançou a cabeça e os raios de luz lhe revelavam vislumbres de uma paisagem que Natanael só conseguiu descrever utilizando a palavra “carnificina”. Algo brilhou na altura próxima ao seu joelho: uma extremidade metálica, ereta em meio a uma massa formada por plástico, papel e por uma substância melosa, esteva a ponto de rasgar sua roupa protetora. Parecia que o metal preparava um bote.

            - Ali embaixo, ali embaixo, eu parecia estar no mais distante futuro, ou no mais distante passado! Em um ponto no qual tudo já esteve, ou estará, de olhos fechados. Me afastei um pouco daquela barra de metal e estiquei a mão para pegar o primeiro objeto que consegui, pela primeira vez, reconhecer: tinha sido construído, meus amigos, com uma matéria lisa ao toque e seu tamanho não era grande, pelo contrário, quase cabia em uma mão humana. O objeto previa um “dentro” e um “fora”. E em certo ponto de sua superfície, tinha sido acoplada uma prótese que se projetava de um jeito elegante, contido, curvilíneo, cheio de significâncias!

            Todos os presentes se entreolharam, exceto Faustine, que continuava com o olhar fixo na direção do nosso colega de apartamento.

            - ...?

            A voz dela parecia vir de longe, lá do outro lado.

            Natanael se levantou, pegou água na cozinha, perguntou se alguém mais queria vinho ou cerveja. Já era tarde, mas ninguém fazia menção de ir embora.

            Ao voltar, disse:

            - Foi então que aconteceu a coisa mais estranha.

            Natanael agarrou o objeto e o iluminou. Lembra, Lucas, quando a gente tinha um aquário? Lembra? Sim, lembro: um aquário não tão pequeno, que ficava na sala daquele apartamento e cujos custos e manutenção eu dividi durante algum tempo com Natanael. Só havia uma espécie de peixinho dentro do aquário, era uma espécie bem pequena e magra, talvez do tamanho de um dedo mindinho, se não menor; tínhamos, sei lá, talvez uns vinte destes peixes, que nadavam sempre juntos. O movimento deles me lembrava o daqueles bailarinos ou artistas circenses, cujos movimentos circulares no picadeiro são ornamentados com um pano comprido, geralmente de cor forte, um azul, um vermelho, um dourado, e que se espalha por todos os lados, ondulando; no caso, aqueles peixinhos possuíam escamas grises e seus dorsos eram atravessados por uma faixa azul fosforescente; abaixo da faixa neon, o ventre era um vermelho quase caindo no laranja. Gostávamos muito, isto antes que Faustine vinhesse morar conosco, de apagar as luzes da sala (apenas a luz do aquário permanecia acessa), colocar umas almofadas no chão, deitar em cima delas e passar um bom tempo vendo o lá-e-cá dos peixes. Eu geralmente botava um dos dois primeiros do Pink Floyd, ou um Mutantes, ou aquele disco de capa colorida do Cream, ou mesmo o Tommy, e assim ficávamos até Natanael dormir. Às vezes, eu abria uma cerveja. Durante um bom tempo, esta foi a única maneira que Natanael encontrou de dormir sem a ajuda de remédios.

            Quando ele focou a luz no objeto e o tocou, foram luzes que viu, luzes que pareciam peixes.

            - Mas não acho isso estranho, Natanael!

            - Por que não, Lucas?

            - Deixe ele terminar! – Alguém falou.

            Faustine me olhava.

            - Diz de novo o que tu viu.

            - Eu vi, Lucas, um acúmulo de luzes se mexendo ao redor da minha mão, do meu braço, do Objeto. Eu... Eram pequenas partículas, ou melhor, minúsculas cordas e só então vi que nunca poderiam ser peixes, talvez se fossem, talvez se fossem... Eram bem menores do que nossos peixes, mas se mexiam, como se mexiam!, e me davam a impressão de que tinham sido conduzidos, orquestrados, que havia uma, uma regência ali, uma vontade!

            - Mas, no nosso aquário, eles rodavam e rodavam sem ter pra onde ir.

            - É verdade, mas ao mesmo tempo, não parecia uma coisa meio que uma dança? Uma exibição?

            - Sim, mas esse é o jeito que a gente tem de entender a coisa toda, acho.

            Pausa.

            - Aquelas cordas fosforescentes se mexiam e vibravam.

            - Algo no seu olho, talvez algum efeito ainda do reflexo da luz dos prédios, Natanael. E você não dormiu direito também, você mesmo disse. Além disso, se você esteve lá embaixo e tudo estava tão escuro assim...

            - Estava escuro!

            Agora era difícil decifrar Natanael.

            - Tudo durou muito rápido. Quer dizer, pareceu um longo tempo, longo mesmo!, que eu fiquei olhando o movimento, o... – de repente ele bateu palmas. – O formigamento! É como se eu tivesse percebido que minha mão e o tal objeto, não só ele. Tudo se encalhava. Eu via, é como se existissem as coisas mesmo, mas menos cheias! Aí tudo poderia estar por dentro de tudo, se cruzando, se misturando. Deslizando mesmo sem grande problema. Porque havia lugar, porque podia ter espaço, se não fossem aqueles peixes que, dentro de tudo, teimosamente, inimigos uns dos outros, se batessem de frente com a cabeça, impedindo a maravilha que deve ser um mundo todo acumulado. Daí a luz apagou! E eu pensei: não tem mais braço. Estão aí, perdidos. E eu poderia me sentir assim, cada vez menos, cada pequena corda se esticando para dar lugar à escuridão que me enchia e me enchia cada vez mais, lavando o meu nome. Não sei quanto tempo fiquei assim e não lembro de ter me mexido um centímetro que fosse. Mas meu corpo ainda era meu e o que aconteceu foi que me movi, sei lá pra onde, até porque “onde” não me ajudaria em nada. E isso meio que me acordou. E fiquei apalpando tudo ao meu redor, nadando e apalpando e tentando advinhar, e eu já estava seguro, já tinha a segurança de que meu corpo, a não ser que algo desse muito errado, continuaria a ser mais ou menos o que se espera – Nesta hora, talvez por nenhum motivo em especial, Faustine se levantou e saiu. Sem cumprimentar ninguém, sem dizer qualquer outra palavra, não a vimos mais no resto da noite. – e sei que eu apalpei diferentes tipos de objetos, vocês não fazem ideia do quanto existe no fundo daquele rio, é como se eu tocasse isso aqui, por exemplo, e me desse a sensação de tocar uma, ou, ou, ou um, as margens...

            As mãos de Natanael, que gesticulavam muito, estacionaram no ar e me deram a impressão de tremer calculadamente. Seu rosto olhava algum ponto incerto, seu peito arfava. A boca, um pouco entreaberta, tinha algum acúmulo meio desagradável de saliva. Finalmente, recolheu as mãos e fechou os lábios. Após pigarrear, disse:

            - Minha luz não voltou, mas uma luz apareceu, lá nas profundezas. Mas não fiquei aliviado, ou algo assim. A luz me deu raiva. A luz, essa foi a sensação, não trazia boas novas, ela me devolvia um “onde”, ela me devolvia o dia e a noite. Se antes eu apenas era, agora eu estava. E isso pesou tanto no meu peito, que eu me expulsei e subi.