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A Cadeira do pai

A mesa está posta, impecável, serena. Ninguém se sentou ainda e vai levar um bocado até que alguém se sente e se sirva. Mas é chegado o momento de se sentar juntos e comer juntos e seguir adiante. A casa continua. As mercearias e os empórios continuam. As contas, as despesas. Faz dois dias já que ninguém chora na casa. Quando passo na sala de noite a luz do quarto de minha mãe está apagada. Silêncio. Ela dorme, todos dormem. Na casa sem meu pai, sem o cheiro do cachimbo, sem as chinelas espalhadas, sem o jornal esparramado, todos dormem.

Da porta da cozinha vejo a mesa, está farta. Não falta o pão, a carne assada ao centro, a travessa de arroz. É almoço, e é domingo. A peça de carne está inteira, como meu pai gostava que estivesse. Fatiar e cortar e depois repartir. Dava gosto ao meu pai que após servir a todos sobrasse carne na travessa. E era porque tinha perseverado e vencido. Todos se saciavam e todos bebiam o vinho e o suco e molhavam o miolo do pão no caldo da carne no fundo dos pratos e brincavam com a ponta dos dedos com os farelos sobre a mesa. E a carne bastava, e sobrava. Era o que meu pai pedia em cada uma de suas preces.

Todas as cortinas da casa foram abertas. A primeira coisa que meu pai fazia ao ver alguma cortina atravancando o caminho do sol era puxá-la de lado. A manhã invadia a sala, os corredores, os quartos. Da poltrona fumava o cachimbo e via o desenho da luz avançando pelo chão da sala. A poeira bailava alegre no coração iluminado. A luz esbarrava na cortina encolhida, aquecia a penumbra dos cantos com uma saúde avermelhada de fruta fresca, de feira em pleno verão.

Meu pai morreu faz mais de duas semanas. Morreu sentado na cadeira-debalanço. O negro Baltazar passou pelo jardim e viu Elizar na varanda e chamou meu pai e não teve aceno e quando chegou na cozinha disse risonho como o velho dorme, Dulce. E Dulce terminou de passar o café preto e arrumou uma bandeja com uma fatia do bolo de fubá e uma xícara com o tanto de açúcar que sabia que Elizar gostava e atravessou gatuna todos os quinze cômodos da casa até a varanda.

Mas meu pai não fez gesto de sentir o cheiro do café. Nem o cheiro do café, nem o calor mulato de Dulce ao seu lado. A mão de meu pai não buscou as ancas de Dulce naquela manhã. Estavam quietas, cheias de veias. Dulce então viu o cachimbo no chão e o fumo caprichoso espalhado e o barulho que vinha da rua era imenso e o vento tranquilo. E Dulce entendeu tudo em um grito que Jorge da Botica ouviu dois quarteirões abaixo de nossa casa. Quando me viu passando pela calçada em frente a botica Jorge me disse pegue o Bastos que é forte e tenha paz e vá para casa que tua mãe precisa de teu abraço porque teu pai morreu. E meu pai tinha morrido mesmo.

Na missa de sétimo dia o Largo de Vaz Lobo estava abarrotado. Curiosos ficaram atulhados do lado de fora da Igreja. Padre Acácio largou a celebração na metade e se sentou ao lado de minha mãe, derrotado. Até traste morre disse alto Acácio e todos riram. Quem disse que vaso ruim não quebra não foi tão sábio quanto pensava disse Acácio e todos riram. O padre apertou uma mão na outra e se levantou e disse a morte não é o pior que pode acontecer na vida de um homem. Silêncio na igreja. Acácio voltou ao átrio e deu um sorriso cansado e enxugou o rosto com a batina e retomou a missa. Minha mãe e minha tia sorviam cada palavra do padre.

O velho Matias entrou na Igreja olhando o chão. Assim que soube da morte de meu pai Matias mandou fechar suas mercearias. Nada de putas, e jogo, e cerveja. Matias se trancou em casa, fumando, enorme, pesado. Só os empórios de meu pai ficaram abertos em Madureira e Vaz Lobo e Vicente de Carvalho por mais de dez dias. Os cachaceiros sentaram nas calçadas, mascando tabaco, confusos, sem saber se podiam beber no rival. E iam até nosso empório e bebiam. Os mais pobres não queriam troco. Só tinham centavos para prestar homenagem. Os menos pobres compravam por curiosidade e me faziam perguntas que Bastos respondia em poucas palavras. Um desaforado ganhou umas bordoadas firmes de Bastos. As alcoviteiras eram espanadas com gracejos de volta à luz da tarde. O menino Ezequiel labutava aquilo que seu pai largava pela metade por desgosto. Um fim de tarde Bastos chorou como criança e entornou meia garrafa de cachaça e quando passou no Largo de Vaz Lobo esmurrou um jegue ouriçado. Passou a noite sumido, entocado.

O velho Matias sentou distante de nós. Mas não nos olhava. Matias não esteve no enterro no Cemitério de Irajá, nem mandou mensagem de pêsames. Vendo ele ali era como se tivesse partido com meu pai. Parecia perdido. O ódio que sentiam um pelo outro parecia infantil. Velho Matias suava, e olhava o chão, e apoiava a testa em sua bengala. Quando padre Acácio terminou a missa, levantou-se, ajeitou o terno combalido, e disse alto Deus é um grande filho da puta. Foi embora. Da grade da Igreja vi o velho Matias se afastando longe. Sozinho. O calor poeirento envolvia seu caminhar bovino. Sumiu em uma esquina.

Do corredor da casa surgiram minha mãe e tia, de mãos dadas. Elas se sentaram na mesa posta. Minha mãe ocupou uma das cabeceiras. Maria olhava a irmã, cuidadosa. A órfã Eliza veio em seguida, de mãos lavadas e cabelo aprumado. Ela se sentou apressada e olhou as batatas assadas e esticou o guardanapo sobre o colo. Dulce surgiu com suco de laranja fresco e colocou a jarra sobre a mesa e disse se precisar de algo é só chamar dona Vera e minha mãe assentiu com a cabeça e Dulce voltou para cozinha. Esperei, esperei e escutei os passos que faltavam, os passos dele. Vieram por trás de mim e passaram por mim sem me cumprimentar. E fincaram firmes diante da mesa.

Isso porque meu pai não era só meu pai.

Meu pai era nosso pai. Meu irmão voltou para casa quatro dias depois do velório. Na missa de sétimo dia desapareceu assim que minha mãe entrou na Igreja Cristo Rei. Sumiu, nenhum sinal por dois dias. Voltou com uma mala pequena. Trouxe todas as roupas que estavam em seu quarto na pensão de estudantes em Botafogo. Só deixei os livros lá, são muitos livros e livros pesam disse meu irmão e eu disse é verdade. Andava pela casa de um lado ao outro. Calculando tudo que tinha mudado nela. Lembrando.

Estou aqui para ajudar disse ele e eu disse se está aqui para ajudar tenho umas sacas que precisam ser carregadas e hoje Bastos está já muito ocupado lá em Madureira e o menino Ezequiel está com ele e meu irmão disse entendo claro umas sacas para carregar. Mas nunca apareceu. Entendo claro disse esticando a mão longa e suave e sorrindo a boca cheia de dentes. Vi meu irmão passando diante da Igreja com uma moça alegre e vi também ele sentado em frente ao Cine Vaz Lobo lendo jornal e fumando e vi ele bebendo festivo cerveja aos berros com Nazário na porta do bar Toledo. Mas não veio ajudar a carregar as sacas. Tinha as mãos suaves, a boca cheia de dentes.

Meu irmão aparecia em casa somente em festas. O pai sentava em um degrau da escada que dava para o jardim e escutava meu irmão falar da Cinelândia e de Copacabana. Na rua da Carioca dá pra catar bilhete do chão e é tanto que parece que a bufunfa brota só de ventar dizia meu irmão e as filhas do Nazário ficavam de mãos dadas rindo e cochichando entre elas e diziam mas essa estória é lenda Inácio e ele dizia o que não é apenas lenda e com privilégio reconheço é o brilho crepuscular do sorriso das distintas senhoritas e elas se empurravam tímidas e saíam de perto dando risadas abafadas. Não somos mais a Capital dizia meu irmão mas quem é rei não perde nunca jamais a majestade e meu pai olhava e media e sorria, sentado na escada. Silencioso, degustando o tabaco. E quando vem o anel de bacharel perguntava o boticário e meu irmão dizia é para breve seu Jorge, é para muito breve.

Mas não era. Descia do bonde em Humaitá e pousava na pensão em que meu irmão morava e sentava com dona Júlia na cozinha e bebia um café bom até que ele retornasse da rua. Nunca da Faculdade Nacional de prédio tão bonito, altivo. Beleza de mármore, com latim laqueado em cobre. A escola de Inácio era a esbórnia. Deixava o envelope graúdo com dona Júlia, e partia. Nas poucas vezes que encontrei meu irmão na pensão ele mal falou comigo. Perguntava pelo pai e eu dizia o pai está bem e ele tenho que estudar irmão até logo e apertava minha mão e se trancava no quarto.

Quando voltava para casa saltava do bonde na Praça Tiradentes e subia pela rua Carioca e bebia uma cerveja no Bar Luiz e depois descia pela Rio Branco até o Teatro Municipal. Namorava os chapéus e os ternos nas vitrines, as entradas dos cinemas. Sorria abobado para as moças espevitadas. Já era noite avançada quando chegava e entrava em casa e minha mãe surgia na penumbra curiosa e me dizia pede para Dulce que ela aquece sua janta meu filho mas não era isso que tornava leve seu sono. E eu dizia mãe Inácio não para de estudar e ela sorria, e se benzia contente, e voltava ao quarto.

E agora meu irmão estava ali, diante da mesa posta. A órfã Eliza olha curiosa para Inácio de pé. Minha mãe e tia Maria, caladas, esperam. Elas esperam. Só existem mais duas cadeiras na mesa. Mas apenas uma cadeira é a cadeira do pai, a cadeira herdada. Essa mesma cadeira, que está nessa mesma cabeceira, desde que nasci. O lugar que agora era dele. Saí da porta da cozinha e passei por meu irmão e sentei onde sempre sentei. Inácio vacila, pende como toco no vento. E ocupa a cabeceira da mesa. Mede o prato vazio, os talheres. Apoia os cotovelos sobre a mesa, e olha para família.

Eliza sorri porque é seu momento especial. Maria assente e ela começa a rezar um Pai Nosso divertido, de olhos fechados. Mede as palavras. Quando termina abre os olhos. Tia Maria envolve Eliza com um abraço e diz mais que mocinha carola lindinha e Eliza arrumando os cachos diz eu sei disso tia que sou linda demais e todos riem. Mas logo vem o silêncio. No meio da mesa impera inteira a peça de carne assada. Até Eliza sente um peso, fica séria.

Inácio entende e se levanta. Segura os talheres, a faca enorme, e finca o garfo na carne. Mas a cada fatia troncha cortada, a carne vai se desfarelando. Minha mãe encara doída a carne desmanchada. Ela olha para dentro. Meu irmão serve todos. Almoçamos em silêncio. Minha mãe se retira. Tia Maria e Eliza se retiram, em seguida. Inácio descansa os talheres sobre o prato. E agora quê irmão diz e esfrega a mão esquerda no rosto. Mas não digo nada. Mastigo o último pedaço de carne e pouso os talheres. Passo o guardanapo sobre meus lábios, devagar. Levanto e peço licença e me retiro.

Na dispensa da cozinha deito sobre as sacas para cochilar. Encaro o teto, estico as pernas. E então escuto o choro agressivo, o choro órfão, vergonhoso, de meu irmão. Cada vez mais alto. Olho as palmas de minhas mãos cortadas, marcadas, conto os calos nos dedos. O cheiro de café e de açúcar e de canela e de feijão me abraçam e afagam. Fecho os olhos. Quero dormir. E não consigo mais, porque faz frio e doem os dentes. E não consigo mais, porque é domingo e faz frio. Mordo com força meu lábio. Respiro fundo. E na solidão da dispensa choro também.